pudor da história

só na biblioteca a gente pode mesmo respirar um consolo pra esse mundo ruim… borges, dos meus autores mais relidos, sempre tem algo a ensinar. deparo com este trecho de “o pudor da história” que eu não “enxergara”; é como se eu seguisse um procedimento que o escritor descreve aqui e do qual também, alguma vez, foi vítima; a gente precisa ler para entender, mas não somente, também para olhar o que antes não vimos:

“… desconfio que a história, a verdadeira história, tem mais pudor e que suas datas essenciais podem ser também, durante longo tempo, secretas. Um prosador chinês observou que o unicórnio, justamente pelo fato de ser anômalo, pode passar despercebido. Os olhos veem o que estão habituados a ver; Tácito não percebeu a Crucificação, embora seu livro a registre.”

Há algo que não terei visto hoje e que se passa secretamente diante de mim. Algo de bom. Preciso fechar os olhos pra ver?

A fenomenal e os dez mangos

Que pena.

Morreu a Mariza, que era mesmo fenomenal. Artista de primeira. Seu físico me lembrava o do Miles Davis nos anos finais, um “tô passando por aqui, nem aí pra vocês”.

Resolvia qualquer pepino que fosse preciso ilustrar no Caderno de Sábado, por exemplo, o suplemento semanal cultural que o JT extinguiu bem antes de dar um fim a si mesmo (tenho a impressão de que se foi tb por desprezar a cultura…). Ela sabia interpretar o fato e levá-lo além.

De vez em quando, vamos lá, quase sempre, pedia dez mangos pra quem estivesse perto e sumia com eles. Se eu tinha, dava, fazer o quê? Uma vez, o ilustrador principal do JT, me fugiu o nome, perguntou a ela antes de lhe emprestar, sorrindo: “Mas você devolve, né?”

contra a grosseria, o abandono e o incêndio entre nós, só tenho tido uma receita particular, que é buscar a beleza onde de início não consigo vê-la.

às vezes (a maioria delas) encontro o que é belo no homem da rua, na criança cujos olhos sempre me localizam, no anúncio luminoso do ponto de ônibus refletido na placa espelhada. e fico achando que passarei por cima de tudo o mais que é ruim, justamente porque esta tarefa de sísifo me distrairá pra sempre.

mas às vezes também só espero a hora de dormir.

da cor dos teus cabelos

sapeio as conversas, leio as redes sociais.

e todos os dias observo isto em alguém muito jovem:

em lugar de enxergar naquele que envelhece o ardor por compreender as coisas, aponta-se nele a inadequação.

a lentidão.

o ridículo.

“seu vovô!”

e seu espaço de ação, quando existe, pouco a pouco se abre ao abismo…

não posso deixar de supor que atingimos o buraco fundo também por conta deste pensamento.

tudo bem que a juventude exija o espaço dos ventos!

tudo muito bem que os cabelos sejam fortes, leves, soltos e livres!

mas se um dia nem cabelos iremos ter, o que faremos com a cabeça que sobrou?

É proibido proibir

Por muitos anos, já durante a República, os governos federais brasileiros quiseram extinguir o carnaval.

Uma festa obscena, certo? E crítica! E suja!

E por este tom andavam as indignações.

Foi então que o marechal-presidente Floriano Peixoto teve uma ideia brilhante para arrefecer os ânimos.

Ele mudaria a data do carnaval. Em lugar de fevereiro, decretaria junho para as comemorações de 1892.

Era pro bem da população.

Sem sol, sem problemas, sem doenças!

Compostura!

Pobre Floriano, não se dava conta do brasileiro…

O que fizeram os cariocas ao saber da mudança? Nem perderam tempo em reclamar. Em fevereiro, celebraram o carnaval extra-oficial. E, em junho, saíram pra folia outra vez, na data que o presidente quis.

Floriano pôs a mão no chapelão. Que povo era esse, meu Deus? E no ano seguinte decretou que o carnaval seria em fevereiro outra vez.

Acima, uma capa do artista J Carlos ironizando pesadamente o intento de proibir a folia em 1927. Sim… Porque a ideia de colocar um fim àquela pouca-vergonha não cessava, certo? J Carlos, contudo, sabia que não iria funcionar! Proibir a festa era chamar a revolução!

Cinco anos depois deste desenho (e de muitos outros de sua autoria, todo santo ano), o governo do Rio, impulsionado por uma ideia de Mário Filho para vender o jornal de esportes da família durante o carnaval, quando ninguém queria saber de futebol, abraçou oficialmente a competição das escolas de samba.

Sirvam-se da história, suas excelências, pastores e generais!

Não estou lá

Não entendo esta foto muito bem.

Minha mãe deve estar em Fortaleza (conjecturo por seus trajes, pela cadeira, o piso) nos dando remédio na rede.

Minha mãe era farmacêutica e amava nos medicar.

Era algo que sabia fazer mais do que mexer na cozinha.

Também gostava de nos ensinar a escrever.

Embora não lesse pra nós.

Minha dúvida não vem de suas preferências ou saberes como mãe.

Vem do fato de que meu pai cortou a foto.

Suponho que seja eu a medicada, mas quem sabe possa ser meu irmão, bastante cuidado, até com banhos artificiais de luz, por ter sofrido um início de raquitismo.

Papai nos cortou na cópia em papel porque mamãe ficou mais bonita sozinha?

Ou o corte existiu desde a hora de fazer a foto, no negativo?

O que sei é que mamãe foi muito intensamente amada por ele.

E quando ela morreu, há exatos dois anos, a vida de papai foi ficando miúda também.

Esta é a mãe carinhosa que meu pai queria ter.

Perdão, a mulher.

Então esteja bem, mulher.

Conosco, mãe.

Tudo, mesmo longo, é tão rápido de viver.

Tudo deverá ter valido, eu sei.

O cinema, no fundo

Perecer em público. “Roma”, Alfonso Cuarón, 2018

Me tornei espectadora do netflix por razões de rendição.

Não posso (embora deseje cada dia mais) estar apenas diante dos filmes do passado com os quais me divirto sozinha e aprendo pra multidão.

Os filmes novos podem não ser lá grande coisa, mas significam combustíveis para a conversa com as amizades.

E você não começa o fogo sem a faísca, como dizia o velho Springsteen (sobre quem vou comentar o especial da netflix, só de raiva, né?)

Minhas idas ao cinema têm sido raras situações de lazer também porque o dinheiro pra entrada, que já é muito, não basta pra custear a coisa toda.

Tem espera, chuva, café, estacionamento, tosse, dor nas costas e celular do vizinho antes de a gente concluir que viu na tela uma novela brasileira ampliada pro mau humor francês.

Quando eu escrevia sobre filmes para a grande imprensa (a luta toda que vocês conhecem), ganhava credenciais, streamings e dvds de lançamentos e me convidavam a ver tudo antes, nas sessões de imprensa intituladas cabines; na verdade, um salão de exibição onde encontrávamos aquelas más pessoas do passado sem a possibilidade de fugir, nem se as luzes se apagassem; um expressionismo danado, senhor Caligari.

Agora que somos sozinhos, eu e meu bolsinho, sozinhos e felizes, preciso de universitários pra baixar filmes novos no torrent. Ou de DVDs piratas.

Muito esforço pra nada.

Vamos de netflix mesmo.

Ou MUBI.

(Mas MUBI é pra filme de arte, e as amizades preferem assuntos mais variados que este, tramas que, digamos, lhes respeite o combalido coração).

Dores de parto, parto de dores

“Roma”, de Alfonso Cuarón.

Resisti a ver.

(o trailer aqui https://www.imdb.com/title/tt6155172/videoplayer/vi3452418585)

Não só porque ri muito com aquele seu anterior “Gravidade”, que era pra ser um filme sério.

Ou porque me aborreci um tanto com seu Harry Potter, quando levava meus filhos pra ver a saga (eles preferiam os livros).

Temi pelo filme autoral de um diretor de estúdio sem ideias próprias.

Aquelas longas sequências de melancolia em p&b, no trailer…

Encarei-o porque era Natal e esnobávamos o tempo.

E descobri que Cuarón tem muitas ideias.

Não exatamente próprias.

Basta! Tem ideias.

E o que ele faz de novo é condensá-las com um propósito muito bom, que é o de narrar a própria história.

Dizem que “Roma” é o “Que horas ela volta” mexicano.

Pra mim, uma grande injustiça com o Cuarón.

Porque, ao contrário da Muylaert, este é um diretor com conhecimento de cinema e técnica pra se permitir um sonho de invenção (algo obrigatório nos grandes diretores antes; Chaplin ou Welles se sentiriam menos que seres humanos se não inventassem alguma coisa jamais provada a cada filme, porque, senão, de que serviria filmar?).

“Que horas” é novela, a começar pelo título ruim. Novela brasileira, interpretada pela Casé perdida no tiroteio, estranhamente convencida de que escapará de todas as balas.

(Olha eu, aqui, falando mal de novela para os brasileiros.)

Contudo, reconheço que a diretora acertou em cheio ao mostrar como a educação do pobre é um incômodo central da classe média, essa aberração marilena do golpe.

Roma, amor, milícia

Imagino Cuarón afetado pelo mesmo constrangimento. O de ter crescido graças ao amor de uma babá apartada da própria família, impossibilitada de ter a sua, em um México convulsionado pelas milícias.

A jovem menina que cuida de uma família inteira, mas usa outra língua com os seus. O “mexicano” é o espanhol do poder local. A família que representa a de Cuarón fala mexicano com ela e lhe dá o lar apartado, ou o que conhece por amor.

Amor, Roma.

O nome do bairro onde Cuarón cresceu.

Muito inteligente que o filme se torne “Roma”, uma vez que o background cinematográfico e histórico é mesmo o do cinema italiano. Mulheres e crianças como micro heróis de uma revolução, à moda do que ensinou De Sica nos roteiros de Zavattini.

Neo-realismo às vezes, mas só às vezes…

O fundo é o plano primeiro

Porque se trata de um filme relacionado a um momento imediatamente posterior, nada heróico, do italiano.

O momento de Valério Zurlini, por exemplo, diretor que nunca esteve entre os “primeiros” da Itália.

Ou de Fellini, que estendeu as ideias do mentor Rossellini para as suas próprias – e assim se separou do amigo.

“Oito e Meio”, Federico Fellini, 1963

Diretores a conduzir muito bem seus personagens ao drama, mas que não os encerram no drama gritado de “novela”; ao fundo deles, corre a realidade, aliás como fez Buster Keaton em “A General”. O fundo é a nossa história, sua ultrapassagem, o contexto.

As coisas não deixam de acontecer ao fundo mesmo que em primeiro plano transcorra o drama particular, ensinam esses diretores, esse momento.

Valério Zurlini, ele próprio, contratava até mesmo um “diretor de fundo” para conduzir as sequências impressionantes, como em “Verão Violento”, de 1959.

“Verão Violento”, de Valério Zurlini, 1959

Sessenta anos atrás!

Um tipo de diretor, o tal do fundo, que desapareceu da historiografia.

Cuarón encena perturbadoras batalhas em localidades públicas, como faz outro sucedâneo do neo-realismo, a “commedia all’italiana”.

O sufocamento de viver, consumir e perecer no parque de diversões, na praia, aos olhos comuns.

Cuarón conduz, como se disse, ele próprio tudo, o primeiro plano e o além dele.

O primeiro plano e o além dele

O homem-bala à distância, no parque, enquanto a protagonista caminha lentamente à espera de encontrar quem lhe abandonou…

A protagonista grávida na loja de móveis, à procura de um berço, enquanto se dá o confronto entre milicianos e estudantes, primeiro fora, depois lá dentro…

Sem mencionar um parto dessa dor…

Aulas de cinema que o cinema desaprendeu.

Um filme que não concede à superação, ao humor, ao sublime.

Um longa para materializar a tristeza…

Mais que ela, a distopia.

Nosso tempo.

Nossos homens nascidos mortos.

Eu então lhe diria, se isto lhe fosse possível:

Vá até a sua poltrona vê-lo.

Morte e graça do cowboy

Sou uma pesquisadora de humor.

Especialmente, do humor no cinema.

Humor relegado.

Diria pisoteado…

E ontem assisti finalmente aos Cohen de “The Ballad of Buster Scruggs”, na netflix.

(o trailer aqui https://www.imdb.com/videoplayer/vi921942553)

Sim, netflix, porque ingressos de cinema têm sido caros, não é?

E desconfortáveis as salas durante a experiência, exceto por aquelas sessões em que acontecem o “Lula livre” e o “Ele não” e a gente libera a raiva, mas raiva não pode, ahn, a tristeza.

Então.

Me sinto feliz que os Cohen tenham partido pro streaming (meu teclado vermelho quis screaming, ele sempre me adivinha…)

Os Cohen, esses herdeiros a cada dia de uma comédia peculiar, à italiana!

Muito apreciados por Mario Monicelli, que via neles o esforço pelo exercício essencial do cinema mudo.

Essa comédia que estudei no doutorado lá na USP…

(Desculpem por isso, não vinha sentindo a necessidade de frisar.)

Bem, trata-se de um filme de episódios que brinca com o gênero western na sua maneira fabular.

Os episódios se abrem como um livro, com ilustrações a evocar uma época editorial.

Cada página cita uma frase-chave de um diálogo que vai correr.

E o ilustra com uma filmagem.

Eu começo pela evocação do livro porque, de tão fantástica, me transporta a uma recuperação infantil, que é um dos procedimentos do humor.

Eu era leitora de histórias ilustradas.

Exatamente como acontecia com a Alice de Lewis Carroll.

E me lembro de um livro perdido na casa de meus pais em que as ilustrações não eram as originais de John Tenniel para as histórias do Carroll, mas muito icônicas e evocativas a seu modo, apesar de subproduto da Disney…

Não li livros sobre western, mas adorava as HQs italianas do Tex.

Western sempre foi um gênero muito bem absorvido pelos italianos.

Esses míticos “nacionalistas” que se veem injustiçados…

Estão nas histórias dos Cohen uma estranha polidez e a graça do cortesão renascentista, personificadas no cavaleiro solitário sobre a poeira.

O cowboy e suas leis, diferentes da regulação social restritiva.

O cowboy e seu canto livre!

O filme é então por isso muitas vezes um musical macabro – o músico Tom Waits aparece extraordinário em um dos episódios.

E nós, como espectadores, vivenciamos cada drama interno ilustrado.

Um entrar no coração dos personagens que não é fácil.

O Fellini de La Strada, por exemplo, comparece à sombra de um contexto determinado, para facilitar esse “acesso”…

As glórias e a pequenez dos homens e mulheres, exemplificados.

E, principalmente, a morte visitadeira.

Em todos os episódios, uma morte ou mais, como a commedia all’italiana normatizou e exerceu.

A morte que realça o drama – ou simplesmente determina a qualidade do humor.

Necessária e inesquecível.

E a morte metafórica, dos sonhos, da civilização.

A carruagem de Maupassant/Ford, o sorriso de Walter Huston…

Tudo o que a cultura cinematográfica nos trouxe e é nossa por direito e transmissão imaginativa.

Isto não é crítica de um belo filme.

Corre perigosamente como uma história de amor.

quase kafka

acordei de um pesadelo.

minha antiga insana patroa morava comigo.

e eu não conseguia tirá-la de casa.

(lá onde eu vivia com uma porção de gente.)

somente eu sabia quem era aquela mulher de fato.

minha família a tratava bem porque não atestara seus malfeitos.

meus mínimos gestos, vestuário, cabelo, bijus, tudo se tornava objeto de seu sarcasmo quando estávamos sós.

“mas ela só está brincando. ela é de esquerda, ela é do bem”, argumentavam os próximos, se eu reclamasse.

a certa altura eu abria a porta da casa.

ventava.

e na calçada a mulher ria feito gralha diante do witzel, a quem, submissa, solicitava o revólver.

eu sabia que vivia uma ditadura.

mas minha família não tinha como saber.

UMA SALA DE AULA, UM VIOLÃO

Quando eu era criança, nos anos 1970, aprendi uma piadinha e decidi contá-la a meu professor de português.

Não a um professor qualquer.

Decidi contá-la a Herr Frehse ele-mesmo.

Alemão na minha escola alemã, ele era implacável por fora mas amoroso lá dentro. Um apaixonado pela cultura brasileira. O melhor professor de línguas que eu tive. Não só de alemão, como também de português.

Alto, magro, usava o cabelo curto grisalho com topete. Na sua arcada superior faltavam os dentes de trás, algo muito evidente quando ele decidia nos bronquear (e desafiar, porque improvisava com humor sobre nossas respostas) com um sarcasmo de príncipe.

Ia trabalhar de terno e gravata. Tinha apenas dois ternos, um azul e um marrom, mas preferia o marrom (e eu ficava alerta quando ele vestia o azul: o que estava tentando nos dizer?). De terno amassado mesmo vigiava o recreio e ironizava os engraçadinhos que surfavam no corrimão.

Ele era o professor que enfrentava qualquer problema. Por “qualquer” entenda nós, os bolsistas, “problemas” vespertinos separados dos estudantes particulares matutinos. Os pobres que precisavam de vigilância acima de todos. Mas eu era criança. Que se danassem os vigias.

Herr Frehse tinha mais uma particularidade. Uma fraqueza? O filho danadíssimo, que desafiava sua inteligente rigidez. Eu o apelidei de Sobrinho do Capitão, numa referência ao desenho do Rudolph Dirks que meu pai me ensinara a amar (eu era a única menina entre as amigas a ler quadrinhos), obra que, por sua vez, simplificava o clássico Max und Moritz, do Wilhelm Busch.

O filho do Frehse parecia um Frehse em miniatura. Mas tinha a franja lisa. Mas era baixinho. Por isso, surfava no corrimão melhor do que nós.

Logo o filho do capitão…

O menino estudava entre os refinados da manhã, mas era um incontrolável em classe e não se intimidava com as proibições. Como deveria ter sido o professor criança, imaginei. Misturava-se a nós à tarde porque precisava esperar o pai sair do trabalho e levá-lo pra casa de fusca.

Só uma vez Herr Frehse me chocou pra pior. E justamente quando mostrou se encaixar no terrível estereótipo alemão, ao ironizar a “avareza” do judeu. Justo ele, que tratava com um carinho bávaro os pretos que éramos e os nordestinos de quem descendíamos. Até hoje não sei se ele disse o que disse ou fui eu que não entendi a brincadeira.

Eu o admirava. Eu o seguia. Todo o tempo quis ser rápida como ele. Irônica como em seus raciocínios. Não era uma ironia que me humilhasse.

E eu queria desafiá-lo pelo menos uma vez, mesmo sem saber contar piada. (Até hoje não sei, enquanto meu marido é um mestre).

Então decorei a pegadinha que roubei de uma amiga. Ou melhor, pensando bem, apenas eu entre as amigas me dispus à coragem de contá-la a Herr Frehse. Ele não esperava coisa semelhante partida de mim, quietinha lá atrás. Só eu poderia lhe causar o efeito humorístico da surpresa.

(E me orgulho disso, pensando bem. Fui bastante cruel, como ele me ensinou a ser. Encontrei seu ponto fraco nessa paixão pelo Brasil e, rá, o ataquei.)

Fui até sua mesa com a cara triste.

– Professor, aconteceu uma coisa terrível.

– O quê?!

– Eu soube hoje.

– Diga logo.

– O Vinicius morreu!

– O Vinicius de Moraes??! Como??

– Pisou no Toquinho, professor!

Nunca antes havia sentido tão perto de mim a ausência de seus dentes de trás.