Randau, como não se pode mais ser

É uma pena que ele se tenha ido, considero eu, tão cedo. Um jornalista como não se vê mais, nem parece mais possível ser. Um rigor como pesquisador, um sabedor com forte comprometimento político.

Era sério demais enquanto escrevia. A redação em volta nem parecia existir. Repórter especial, tinha uma mesa só sua, em que as pastas de recortes se empilhavam feito no filme “Brazil” do Terry Gilliam. Sempre sabia o que escrever e como escrever. Ninguém o pautava, nem seria preciso.

A célebre mesa era perto da minha no JT. Então eu tinha esse prazer diário de vê-lo chegar, com sua camisa branca aberta pra fora da calça surrada, e vir brincar com o Renato Pompeu, o outro gênio, o redator que trabalhava ao meu lado e que havia sido seu companheiro em tantas jornadas pelo jornalismo brasileiro.

Na minha lembrança era um homem simples e grande.

Vá em paz.

Dance!

Nesta casa onde há músicos tão bons, sou o patinho feio da canção.

Mesmo assim, me ponho a cantar toda manhã “O Amor”, a grande versão de Caetano para o poema de Maiakovski. É um compromisso que assumo, uma reanimação para as noites em que os sonhos têm sido estranhos, vingativos contra mim.

Tenho até mesmo cometido gravações no celular ao balançar na rede, à tarde e à noite, certa de que isto não melhorará minha voz, que é um falar. E tenho dançado com ela, ainda que muito mal.

Mas não importa.

Este é mais um jeito de seguir a sugestão que me faz a estrela Sandra Miyazawa: dance! Cuidar do corpo assim será um carinho a praticar comigo mesma neste isolamento.

Vi a Sandra algumas vezes, nunca suspensa no ar, como só ela, tão linda, sabe fazer por nós, pela justiça e a igualdade entre os homens.

E não sei se ela já me viu pessoalmente.

Mas fico muito feliz com a inspiração que ela me dá, a mim e a tantas mulheres como eu.

Meu beijo especial do dia, querida.

Vou voar e cantar também. 💜

Selfiar o que há de bom

a quarentena me volta ao autorretrato.
selfie, como vcs chamam.
e normalmente usam o termo pra depreciar os outros, aqueles que moram no inferno.
(até porque alguns autorretratos são aquilo mesmo que se desgasta, coisas iguais, hipócritas, iludidas.)
adoro selfiar o que há de bom.
talvez só eu mesma conheça os poucos ângulos onde exista algo que se aproveite em mim.
acho que todo mundo é assim.
um dos grandes fotógrafos da minha vida, lee friedlander, fez um revolucionário e lindo livro com seus autorretratos, impressos até mesmo como sombra em quem passava.
entendo-os como uma forma de autoconhecimento.
até eventualmente os mais íntimos, que a gente prudentemente esconde na nuvem, pra não decepcionar o próximo.

Um sentir na pandemia

Ontem, daqui da janela, eu me encontrava conformada. Os passantes prosseguiam, grande parte deles (homens, em sua maioria) sem máscaras, mas não eram tantos assim.

Havia ônibus e filas de ônibus, porém os passageiros se postavam mais ou menos distantes uns dos outros. E muitas crianças, porque assim as entendo, carregavam suprimentos sobre motos e bicicletas.

Hoje, tudo está diferente.

Faz frio. No entanto, há gente considerável circulando todo o tempo, e mais: aproximam-se, conversam entre si. Os policiais, zeladores de estacionamento e vigias encaram os mendigos que chegam perto deles com idênticos braços cruzados, sem conceder ou se afastar diante de sua presença.

Carros e veículos iridescentes conduzidos por transportadores infantis revezam-se em número semelhante no calçamento.

Um ou outro personagem isolado (daqui a pouco os reconhecerei e lhe darei apelidos) grita “fora bolsonaro” das janelas longínquas, como um rápido desabafo. Mas há também pela rua os gritos alongados, parecidos com os daqueles vendedores antigos de beju na praia. E batuques.

Não sei o que as pessoas lá fora pensam.

Porque sei que pensam.

Porque pensar é um sentir.

A beleza dessemelhante

Em relação à psicanálise, estou e sempre estive ainda nas aulinhas de inglês. Mas adoro observar a escrita dessemelhante dos grandes livros.

A de Freud, pra mim, é a mais deliciosa, forte e proustiana das literaturas médicas, porque seus personagens saem das sombras para se postar diante de mim e se transformar em mim.

Jung eu aprecio como aquele dramaturgo muito bom que joga com os papéis e os símbolos para deles extrair um manifesto declamado por ardentes zé-celsos no fim.

Agora Lacan, aqui neste seminário sobre as psicoses, eu o estou entendendo (rs) como um colecionador de raciocínios. Ele vai abrindo as abas do pensamento, contestando e acolhendo seus predecessores, sem nos dar o prazer de chegar ao ponto, e assim nos reter; minha impressão é que não terá respostas ao fim, e que seu brilho será compreender o que existe na base de desconstruir o que compreendeu. Sinceramente, as páginas que li, não necessariamente compreendi (como aquelas dos demais), mas achei fascinantes.

Terei problemas na quarentena? Isn’t he a bit like you and me?

A seguir, pdfs de livros dos três autores:

https://omartelodenietzsche.com/10-livros-para-baixar-em-pdf-para-quem-gosta-de-psicologia-e-psicanalise/

Dostoievski por Joyce

Peguei do amigo querido Marcos Gomes e traduzi correndo este trecho, por sua vez extraído do blog Calle Del Orco.

Não sabia o que Joyce pensava sobre Dostoievski, e aqui está.

“Dostoievsi contribuiu mais do que qualquer outro escritor para forjar a prosa moderna e levá-la a sua intensidade atual. Foi sua potência explosiva a responsável por destroçar a novela vitoriana, com suas trivialidades perfeitamente dispostas e todas essas donzelas que sorriem com afetação: livros carentes de imaginação e violência. Sei que existem os que apontem as ideias amalucadas de Dostoievski, até mesmo sua própria loucura, mas certamente os elementos manejados em sua obra – a violência e o desejo – constituem o alimento mesmo da literatura. Falou-se muito de sua condenação à morte, comutada quando estava a ponto de ser fuzilado, e de seus quatro anos de cativeiro na Sibéria: uma experiência que, apesar dela, não forjou seu temperamento, embora possivelmente o tenha exacerbado. Sempre se enamorou de violência, e isto é o que o torna tão moderno, e o que explica, ademais, que resultasse desagradável a seus contemporâneos: por exemplo, a Turgueniev, que detestava a violência. Tolstói simplesmente não via seu talento literário, mas “admirava seu coração”. Este comentário guarda muita verdade, porque, ainda que os personagens de Dostoievski atuem de maneira extravagante, quase enlouquecidos, seus entendimentos morais são firmes.”

Longe de vocês

Não posso dizer que estranhe a quarentena. Nos últimos três anos, venho de repousos forçados por ligamentos rompidos nas calçadas paulistanas. Mais grave ainda, no ano passado quebrei o pé no largo da Batata, a caminho de um show. Se contar minhas desabilidades nesse tempo, sobre cadeira de rodas ou bengalas, que me fizeram desenvolver tendinite, dá quase um ano longe da cidade e perto das sombras.

Tenho amigos incríveis, que felizmente levam vidas distantes enquanto envelheço. Estão sempre em mim, como sonhos. Às vezes, nas redes sociais, encontro quem me ouça mais que eles, na nossa troca de nudes existenciais sob a pandemia. Viva vocês!

Espero que desses companheiros de hoje surjam alguns amigos olhos nos olhos nos próximos anos. Não é fácil, sendo frila e recolhida como me sinto, perder o abraço quem já gosto pelas palavras, concordâncias e emoticons.

Nenhum retrato melhor

Se eu sobreviver, uma coisa da quarentena restará em minha memória: a faxina virou lembrança.

Uma tia-avó dedurava minha mãe dizendo que ela havia me achado muito feia ao nascer, ao contrário do que aconteceria depois com meus irmãos. Mamãe nunca negou o que disse. E nela eu acreditei.

Me achei desengonçada a vida inteira. Às vezes, feia de doer. Especialmente quando me sentia de mal comigo, algo tão frequente na adolescência, quando era muito alta pros meninos e por isso (ou por qualquer outra razão) não me tiravam pra dançar. E eram eles quem mandavam no baile, sabem, meninas?

Com o tempo entendi que eu não era mesmo essa coisa extraordinária e que precisaria me virar com o que tinha. Uma força lá dentro, um prazer em observar o mundo – isso me bastaria. Haveria vida, sim, fora da sala dos apartamentos onde uns sortudos dançavam colados.

Até hoje procuro me divertir com a vida. Que uso melhor fazer dela? Me acho muito engraçada nesta montagem que era serviço fotográfico consagrado durante minha infância.

Na maioria das vezes, felizmente, ainda sou a Rosane do meio. Mas as Rosanes pensativas, desconfiadas e/ou irônicas acima dela tomam bastante meus dias. Essa desconfiança e esse pensamento me deram as rugas de agora. Eis por que jamais vou me esforçar em tirar qualquer sulco nascido em torno destes olhinhos. Não existe melhor retrato de mim que eu possa inventar, exceto esse que eu mesma, por décadas partícipe da vida, construí.

Não me iludo e contudo

Todos esses raciocínios que vislumbram uma era mais humana pós-corona me levam a ter carinho por quem os faz, embora, na real, me pareçam iludidos, infundados.

Basta observar que no meio da pandemia, por exemplo, o que se vê é guerra internacional por máscaras e sequestro universal de respiradores por parte de quem detém o poder.

Por que tudo será tão melhor depois que a pandemia for embora, então?

Enfim, não custa crer que em nível global o sonolento desperte após um longo sofrimento.

O que eu sei é que nós, eu digo nós, os fudidos, sempre nos lembraremos das lições que tivemos. E, se sobrevivermos, vamos mandar batatas pra eles quando parecerem vencer.