“Teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno, estricnina, que peixeira de baiano. Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver”.
E ironia das melhores.
A música é tocada alegremente no restaurante aglomerado da minha rua, em pleno setembro amarelo contra o suicídio.
Longa-metragem romeno presente no festival É Tudo Verdade, “Colectiv” acompanha a cobertura jornalística do incêndio de uma boate que acabou por expor a corrupção em todo o sistema de saúde do país
Um dos 74 mortos no incêndio da boate Colectiv, em Bucareste
Um filme como este deveria mudar tudo. Não somente a maneira pela qual os documentários são feitos, mas o modo como a coletividade é gerida. Ao investigar as consequências de um incêndio em 2015 numa discoteca romena, irônica e justamente intitulada Colectiv, o longa compreenderá a falência de um sistema político.
O jornalista Catalin Tolontan, que apurou o escândalo da diluição dos biocidas nas UTIs romenas: “Quando a imprensa se curva às autoridades, a população é maltratada”
É como se o espectador tivesse diante de si a excepcional dramatização de um fato, exceto que não se trata de ficção. Não são Hoffmans e Redfords a encenar os repórteres que revelarão Watergate, mas jornalistas reais que descobrirão por meio de sua fonte, de seu Garganta Profunda, que a criminosa diluição de biocidas se alastrou pelos hospitais públicos da Romênia. Foi o ambiente incapaz de suprimir infecções hospitalares o responsável pela maioria das 74 mortes, e não o fogo a interromper o show de rock contra a corrupção a um público que não encontrou as saídas de emergência.
O ministro da Saúde da Romênia Vlad Voiculescu, em luta por desbaratar um sistema corrompido
O cineasta Alexander Nanau não vai atrás dos donos do estabelecimento, mas obtém todos os materiais que lhe interessam além disso, desde a filmagem do início do incêndio até a via crúcis de pacientes queimados e seus parentes, os protestos de rua que resultaram na convocação de novas eleições gerais, as coberturas da imprensa televisiva e, principalmente, o cotidiano da redação do jornal – especializado em esportes! – que primeiro investiga as denúncias, além da luta de um ministro por combater, a partir delas, a corrupção na saúde.
Uma das pacientes vítimas de queimaduras e mutilações posa para um ensaio fotográfico
O filme tem um ritmo espetacular, calmo e seguro, para abordar os silêncios e as exasperações. Os documentaristas estão presentes nas reuniões e nas apurações, e seus personagens são nítidos, assim como sua apreensão. Os repórteres liderados por Catalin Tolontan logo se verão ameaçados não só por mafiosos, mas pelos próprios colegas. O novo ministro da Saúde depara com a burocratização das leis e a empáfia daqueles sem experiência hospitalar alçados à direção por um gangsterismo há muito instituído.
Nas ruas de Bucareste, em 2015, manifestantes apoiam imprensa que revelou o escândalo: “Diluam a corrupção!”
“Diluam a corrupção!”, gritam os manifestantes nas ruas. Mas o que ocorrerá se as eleições gerais confirmarem os criminosos no poder? Contenha-se para não assemelhar o assunto deste filme ao Brasil. Nós não temos essa imprensa, nem mesmo a esportiva.
O que mais me impressionou em “O Dilema das Redes” foi saber que adolescentes têm feito plástica para assemelhar seus rostos a filtros de instagram. O filme me convenceu de que especialmente para as crianças e adolescentes as redes sociais podem ser arrasadoras, pois se trata de atingir com algoritmos maquiavélicos pessoas naturalmente indefesas, em fase de formação. Mas fiquei com a impressão de que, de resto, eu já conhecia todo o mal que esses zuckerbergs da vida fazem a nós adultos via twitter, instagram, facebook. (Há zucas também por trás da Netflix que exibe o filme, mas nele, claro, a plataforma de streaming não é identificada como uma rede…). Dizer que nós (nossos dados) somos os produtos vendidos, já que não existe almoço grátis e não pagamos pelo uso dessas plataformas, é infelizmente sabido. Dizer que querem prender nossa atenção e transformar em necessidades produtos antes nem mesmo percebidos por nós, igualmente. (E, se pensarmos bem, essa ideia tem muitas décadas de estrada, desde a publicidade em rádio, cinema e tevê, aperfeiçoada, por exemplo, pelo nazismo…) No campo político, o filme elabora que o erro a atingir fatalmente a nossa democracia ocidental será o da polarização incentivada pelas redes. Mas não sei se polarização é uma boa palavra a usar nesse campo. O filme não traz estudiosos da política para aprofundar o tema. O que vejo acontecer pelas redes sociais é uma reação (às vezes nem tão polarizada ou veemente) contra as fake news. E qual outra reação exceto a polarizada poderia existir à livre circulação de notícias falsas? Por que não há uma regulação para as redes sociais? Em nossos dias, elas trabalham extraterritorialmente, multiplicando-se com suas próprias leis e criando novos monstros políticos a partir da disseminação de fake news. Se a democracia é um valor tão caro ao Ocidente, alguma regulação já deveria ter começado. Ou a democracia não é mais um valor a preservar?
Morre com pneumonia aos 92 anos Flávio Damm, um fotógrafo para nossa história do instante e do humor
Uma comemoração da Revolução dos Cravos em Lisboa, 25 de abril de 2008
Flávio Damm (1918-2020) era meu amigo. Não que ele soubesse exatamente disso, porque amigos não lhe faltavam e ele não me conhecia pessoalmente. Mas eu o entendia assim porque, quando lhe telefonava da redação, aflita por um raciocínio inteligente que pudesse incluir nas minhas reportagens sobre fotografia, ríamos às vezes por mais de uma hora durante a qual ele enfileirava episódios anedóticos. Flávio soltava sem pudor linhas admiradas ou duras acerca de fotógrafos do passado, como seu ídolo José Medeiros ou o correspondente de guerra Luciano Carneiro, que não sabia invejar secretamente.
Não raro, após essas longas ligações, ele me enviava de maneira gentil fotos suas autografadas, como esta acima, de Lisboa, naquele Portugal que visitava sempre. Cidade da história, da qual ele extraía um fado de alegria.
Era então, melhor dizendo, minha amizade à distância no jornalismo, alguém cujos livros eu resenhava e em torno de quem sempre procurava uma desculpa a resultar num telefonar. Seja um fotógrafo, pense sobre o que faz, e eu não largo você nunca mais…
Flávio me deu uma definição muito prática para o que, na sua opinião, seria um fotógrafo de rua, no caso ele próprio: “Eu me aproximo como um gato e fujo como um rato”. A foto de rua (e ele nunca se esqueceu disso, como todos os grandes) é um roubo explícito, necessário – e galante, contudo.
Há alguns anos, Flávio, que na revista Cruzeiro experimentara a passagem gloriosa e sofrida do uso de câmeras reflex (cujos negativos, quadrados, eram do apreço de Jean Manzon) para o de ágeis Leica (e Manzon de início vetara seu uso), nos últimos tempos vivia ensimesmado com o fim da fotografia. Bem, ensimesmado é pouco. Furioso mesmo.
Ele ouvira dizer que em O Globo não se usariam mais máquinas fotográficas, mas câmeras de filmar. Isto daria então ao editor o poder de escolher o frame que lhe aprouvesse do trabalho de quem filmava para publicação no jornal. Seria demais se isto de fato se desse e eu no fundo desconfiava dessa ocorrência, porque se tratava de acrescentar mais uma atribuição ao editor de jornal, ele que já mergulhava em tantas imagens a decidir num dia só. De um jogo de gato e rato, tudo passaria então à atribuição de lebres atordoadas…
Flávio foi um precursor em tudo, não só porque levou ao mundo as primeiras imagens do exílio de Getúlio Vargas ou esteve longamente com Cândido Portinari, tornando-se seu retratista quase exclusivo e dando até mesmo ao único filho o nome do pintor. Foi precursor porque, insistente capturador de breves momentos bem-humorados na cidade áspera, transformava-a por vezes numa vila de frescor, como aquela Paris de Robert Doisneau ou Édouard Boubat.
Vou sentir muita falta de sua risada, de sua narrativa precisa de detalhes e datas. Principalmente, de sua reserva memorial e analítica para uma arte sobre a qual repousa um silencioso desprezo crítico e de apreciação. Amigo, fique em paz.
Uma obra do diretor e a recordação de uns pivas de moreiras
Quando um amigo como Wesley Pereira de Castro sugere, não evito. E não havia motivo qualquer pra repúdio, porque amo Larry Clark desde sua fotografia.
O livro “Tulsa”, de 1971, com o balé das seringas, a morte e o enterro da criança ao fim, não me abandona. Que história.
Que difícil é ele por nos perguntar quem somos, e o que fizemos de nós, com a beleza intensa que atrai…
“O Cheiro da Gente”, seu filme de 2014, que meu amigo indicou e eu vi ontem, toca no barroco da gente. Mais uma vez, um filme sobre a juventude.
O chão sujo para as faces dos anjos. O jovem que literalmente tripudia sobre o corpo velho que lhe dá sustento, depois de amarrá-lo a uma teia de dor…
O corpo que se prende em sacrifício à desilusão, aos homens, às garrafas, ao cheiro da rua!
Com um ritmo e um movimento cinematográficos de prender nossas vidas a um instante.
São skatistas e garotos de programa na via bonita da cidade. Como acontece na praça Ramos daqui. Os mesmos volteios das esculturas. E os skatistas desligados dos pedestres.
Um deles, aqui em São Paulo, machucou ainda mais o pé que me atormenta, e eu o perdoei… O que eu fazia lá, atravessando a rua? Por que a julguei minha? Ele segurou meu corpo com um dos braços fortes para impedir a face triste de ir ao chão.
Olhei ao redor me perguntando por onde vagaria o Roberto Piva dos adolescentes rubros… Ou o Carlos Moreira do meu coração nos cinemas que insistiam em existir na Dom José de Barros…
Os meninos de “O Cheiro da Gente” são tanto do que sou. Dos desencontros e do amor. Mas estou viva! Viva, Piva!
Um filme, mas também uma narrativa na sucessão de “Lamentação sobre o Cristo morto”, de Andrea Mantegna, e “Mamma Roma”, de Pasolini.
Documentário refaz a trajetória de Vivian, a primeira esposa de Johnny Cash, perseguida pela Ku Klux Klan e descaracterizada pela cinebiografia “Johnny e June”, lançada há 15 anos
Vivian, que nasceu Liberto, a primeira e controversa esposa de Johnny Cash
Quando um pintor deseja modificar um trecho indesejado de seu quadro, cobre-o usando o pincel. Mas, conforme o tempo passa, seu quadro corre um risco. O envelhecimento pode anular a camada de tinta e fazer surgir o que ficou encoberto. A este processo, na pintura, se intitula “arrependimento”. Vivemos para constatar algo parecido surgir no cenário da música popular estadunidense. Vivian Liberto (1934-2005), a primeira esposa de Johnny Cash, foi apagada de um quadro inteiro e o arrependimento começou.
Na sua festa de casamento com Cash, em 1954
Vivian conheceu o marido aos 17 anos numa pista de patins enquanto ele, aos 19, prestava serviço militar em San Antonio, Texas. Cash viajou para servir em Berlim, escreveu-lhe mil cartas apaixonadas e de volta casou-se com ela. Tiveram quatro filhas em breve período, enquanto sua carreira explodia e eles se mudavam para uma montanha na Califórnia. De menina católica do interior, Vivian se viu cercada por flashes e fãs. Não tardaria em se apoiar numa espingarda capaz de livrá-la tanto das cascavéis quanto de possíveis ataques da Ku Klux Klan. Entendida como negra pelos supremacistas, Vivian precisou declarar-se branca em juízo para que o marido pudesse fazer shows no sul. Logo, mergulhado em drogas e em novo amor, o músico não voltaria mais para casa.
Ao centro, rodeada pelas filhas, anos depois da separação
Endemonizar a mãe solitária e rechaçada pelo establishment foi o que fez Johnny e June, cinebiografia de 2005 que deu o Oscar a Reese Witherspoon no papel de June Carter, a segunda mulher de Cash. No filme, Ginnifer Goodwin interpreta Vivian, parodiada no Saturday Night Live por Kristen Wiig. O documentário My Darling Vivian, que não é musical, mostra como até mesmo o único agradecimento feito à primeira esposa, durante o funeral de Cash, foi cortado pela transmissão televisiva do evento. Suas filhas produziram este filme de narrativa tradicional, recheado de depoimentos, fotos e efeitos delicadamente especiais, para dar sua versão sobre a mãe cancelada, e já era tempo.
MY DARLING VIVIAN Diretor: Matt Riddlehoover Brasil, 2019, 90 min
Ontem vi o documentário sobre Garoto no in-Edit. Não é perfeito, nada é, mas, ainda assim, imprescindível. Tendo Garoto, somos grandes, somos Brasil. Você pode assistir até o dia 20.
Ontem também vi a live sobre Hannah Arendt dentro de um ciclo de palestras do grupo Arendt Brasil. Todo fim de semana há uma abordagem nova pra sua história. Semana que vem, sua amizade com Walter Benjamin.
Gostaria que o documentário “Gaza”, exibido na mostra árabe encerrada ontem, pudesse chegar a nosso circuito comercial. Ele dá a medida do pavor e da esperança profundos de 2 milhões de pessoas espremidas em uma faixa palestina de 40 km de extensão e 11km de largura, impossibilitadas de alcançar qualquer fronteira, com Egito e Israel, e então sair dali para uma vida melhor. Nem pescar podem numa faixa além de 4,8 km da praia ao oceano… Não têm luz frequente, nem água, comida… “Uma prisão a céu aberto”, diz um salva-vidas. Mas eles ainda pescam, dormem na areia e sonham além-mar. Chorei como poucas vezes.
Documentário mostra a história de Porfírio do Amaral, um sambista negro quase desconhecido (como muitos ainda devem ser), mas um prosador-pensador como poucos no Recôncavo puderam testemunhar
Porfírio do Amaral aos 55 anos, em 1971, durante a realização do programa da TV Cultura que jamais foi ao ar
O pai queria lhe dar um nome que remetesse à realeza. Decidiu chamá-lo Porfírio, aquele que vinha revestido de púrpura, a cor das roupas do rei. Por estar certo de que seu filho triunfaria, não ligou quando uma cigana sentenciou à mãe, diante da criança ainda pequena: “Nunca deixe esse menino cantar. A morte acompanha a sorte dele”. O pai era um poeta racional numa Bahia mística. Mas, a partir daí e por toda a vida, Porfírio do Amaral se sentiu nervoso para colocar a voz. Diretor na TV Cultura de São Paulo, Fernando Faro chamou-o para um piloto de seu programa sobre música brasileira e nunca pôde exibi-lo, porque Porfirio, o compositor, não conseguia cantar as próprias canções, sempre nascidas do sofrimento. Ele falava como um filósofo, na verdade um rei da filosofia, mas, quando se abria ao canto, surgia a gagueira das emoções. Ou do medo.
A neta Letícia, que estuda cinema no Recôncavo e trabalha sobre a memória do avô Chô
O cineasta Caio Rubens descobriu a gravação de 1971 e a incluiu neste documentário, que só por isso já valeria o vislumbre. Porfirio fala dramaticamente as coisas mais lindas e duras, sem receio, por exemplo, de chamar de golpe o que a televisão da época intitulou revolução. Com paciência para os testemunhos, mesmo para aqueles que não dirão diretamente de Porfirio, como o de Elza Soares, o diretor amplia o contexto do samba e do Recôncavo. Muita gente depõe, de Roberto Mendes, Carlinhos Brown, Nelson Sargento, Mateus Aleluia e Chico Buarque ao ator Antonio Pitanga (um elo entre Porfirio, então porteiro da TV Cultura, e Faro) e à neta Letícia, que gravou em VHS a intimidade com o avô Chô, do apelido Choriça que lhe deram por ser magrinho.
Porfírio e suas netas, em imagem captada em VHS por Letícia Uma interpretação em VHS para a rotina do compositor e percussionista
O personagem se delineia aos poucos, enquanto Margareth Menezes, Gloria Bonfim e outros intérpretes apresentam suas canções. Apesar de não constar no google, nem mesmo no Dicionário Ricardo Cravo Albin da Música Popular Brasileira, Porfirio existiu entre 1917 e 2008, e existe cada vez mais. Compositor de melodia triste para prosa alegre e de melodia alegre para prosa triste, foi precursor de pagodes e sambalanços, homem da cuíca que chorava lancinante, das chulas e cantos de senzala que pressupõem a aglomeração e a comunhão. Samba não é um gênero, dizia. Há muitos sambas que são gêneros por si. E ele não foi só um sambista, mas um homem que nasceu para refletir.
Com Fernando Faro, que acompanhou sua carreira
PORFÍRIO DO AMARAL: A VERDADE SOBRE O SAMBA Diretor: Caio Rubens Brasil, 2019, 83 min
Fagner cantando (mal) o hino na posse do Fux nem é uma morte horrível.
É mais como se o lobisomem sem dentes tivesse voltado para nos dar pena.
Tenho de confessar que gostava de Fagner na minha juventude, especialmente de sua interpretação para “Mucuripe” de Belchior e de sua apropriação descarada de um poema de Cecília Meireles (a família da poeta é um entrave à divulgação de sua obra magnífica).
Principalmente, fiquei feliz ao vê-lo num jogo do Santos contra o Ferrinho (Ferroviário do Ceará) a que compareci, e que saiu empatado em 1 a 1 em Fortaleza nem sei bem por quê.
Um show de Ailton Lira pros meus olhos admirados!
Fagner foi-se faz tempo, mas por onde andará o Lira, gente?
O filme “Martin Eden” transpõe para a Itália heroicamente desiludida a obra de Jack London sobre o engajamento das palavras
Luca Marinelli é Martin Eden, entre ferozes utopias
Metade deste Martin Eden (2019) é só o Jack London que amo e seus Estados Unidos da América, aqueles onde o escritor viveu, entre 1876 e 1916. A outra metade é a Itália idealizada, amada igualmente, onde este filme foi escrito a partir do livro homônimo e em parte autobiográfico de London, máxima ficção sobre a honra perdida do jornalismo, minha profissão e meu descontentamento.
Então é muito o que peço a este filme desde seu início, que faça jus ao que espero, na verdade anseio, aquilo por que luto e pelo que vivi por tantos anos, desde a adolescência tardia embebida pelos textos mágicos do escritor, alguns deles que também ousei traduzir (no volume 11 da coleção Para Gostar de Ler, 5 reais na Estante Virtual).
Jack London, no reino dos fortes
Martin Eden, por favor, não é apenas a história amorosa e aventureira de um marinheiro alçado ao fervor das palavras, estas que já sentia suas mesmo antes de deparar com o insólito universo liberal dos letrados. É antes um filme-estudo sobre a promissora ascensão socialista, que logo cederia lugar à Primeira Guerra, fagulha a acelerar a mais nova, infame e persistente ameaça à igualdade, o fascismo.
Jack London acolhia as ideias de Spencer, bem explicitadas neste filme, e traduzidas pelo escritor numa espécie de socialismo utópico que deveria ser conduzido por indivíduos fortes como ele próprio. Este indivíduo político que London lutou pra ser durante seus intensos 40 anos de vida e uma literatura tomada pela paixão que contamina, rasga e exaspera os sonhos, acabou um dia, adivinhe, a se diluir na autoimagem condescendente estadunidense, aquela segundo a qual a todos em sociedade se dá a oportunidade de tornar-se o que bem projetar. De pensador temperamental em prol da justiça social, Jack London, melhor dizendo, sua aura pública, foi então aos poucos associada a uma imaginária essência voluntariosa e benéfica do capital competidor.
Em que pese o fascismo
Minha alegria diante deste filme nasceu primeiramente disto, de ele não se deixar cooptar por nenhum capitalismo. Não reconstrói Martin Eden para o bom palato estadunidense. O homem foi e será para sempre muito difícil de engolir, nos diz. Bruto, verdadeiro. Antiliberal. Para dar conta de seu protagonista, o diretor e roteirista do filme (junto a Maurizio Braucci), Pietro Marcello, chamou o forte ator Luca Marinelli, de longo nariz e olhos azuis. Ele é Martin porque é o Éden também. Um ator para fortalezas e nuances.
Com Elena (Jessica Cressy), sonho azulCom Margherita (Denise Sardisco), um vermelho furor
Ele briga, ama, peleja na siderurgia, envia mais e mais originais às redações, sempre rejeitados, quer bem à irmã como London também quis, para só depois de muita humilhação e acolhimento proletário se tornar um profissional sem qualquer escusa, sem jamais aceitar o posto no escritório que lhe apontava sua noiva rica, ilustrada e delicada para palavrões.
A imensidão que engendra a revolução
O filme perturba os tempos. A indefinição de onde nos encontramos, dentro dele, é uma de suas porções adoráveis. Quando proletário, Martin Eden é também o mundo dos pobres italianos desde as greves piemontesas até aquele dos anos 1970 em que a televisão se infiltra aos poucos como adorno principal unificador. Quando se mete entre os ricos, o filme penetra facilmente no século 19 onde esta história começa, com seus salões vastos e sua preciosa decoração imperial. Você nunca perceberá exatamente em que ano estará, exceto quando descobrir que é este o jogo do filme, desenraizá-lo até que atinja a realidade dolorosamente imutável de nossos próprios tempos de desilusões.
Nápoles para marinheiros
Ambientado em Nápoles, que espertamente substitui a fria Oakland do livro, Martin Eden fala principalmente sobre a fúria heróica que acometeu o italiano no pós-Segunda Guerra. Um heroísmo fatalmente sucedido pela vilania pequeno-burguesa (bem pequena) do boom econômico, segundo a forma cinematográfica paciente com que Mario Monicelli a descreveu. É isto mesmo o que parece. Por vezes o belo ator Marinelli adentra o terreno abraçado por Alberto Sordi na dura commedia all’italiana… Estará ele a reviver o jornalismo idealista e o ardor militante fulminados pela paixão impassível de Uma Vida Difícil, de Dino Risi? Toda a parte final do filme é um grito do grotesco que acomete os bem-sucedidos, todo o épico do horror cômico em que os sonhos findam…
O mar que marca
E isto tudo com tamanha textura nas imagens, uma granulação a evocar os impressionistas, o azul sobressaído, os homens a se movimentar na multidão!
Que filme surpreendentemente atual com que gastar suas horas tristes.
MARTIN EDEN Diretor: Pietro Marcello Itália, 2019, 129 min