Uma vez o Renato Pompeu, jornalista e escritor brilhante, me disse isto que vou contar agora pra vocês.
Ele não falava mal de livro ruim.
Isto porque sentia o peso da responsabilidade.
E se sua crítica fosse no futuro a última na Terra sobre um objeto extinto, o livro, justamente?
A resenha deveria então servir para mais do que simplesmente classificar uma obra no presente como boa ou ruim.
O texto deveria evocar a literatura, para que os leitores a reconstruíssem no futuro, por meio de novos livros.
Bonito, não?
Ontem tive de escrever sobre um filme que não julguei de todo bom.
E o pensamento do meu amigo retornou.
Mas e se meu texto fosse o último no futuro a restar sobre o cinema, este que teria se perdido?
Então minha responsabilidade cresceria.
Não que o filme que eu resenhasse fosse ruim.
Mas tinha um problema (a meu ver).
Embora ainda evocasse lindamente o cinema!
Este que no presente dá a impressão de se perder…
Então lutei pra aplicar ao cinema o princípio do Renato em relação à literatura.
Nem todo filme é cinema, como nem todo livro, literatura.
Porém, cinema e literatura precisam continuar a existir.
A se refazer.
Espero que minha crítica tenha dito isto.
Hoje e no futuro, se algum futuro houver…
Mais importante que tudo isto, como sou feliz por ter usufruído da amizade com o Renatão!
Uma riqueza amorosa de pensamento, como muitos livros não conseguem conter.
A cinemateca, sozinha nesta noite
não paro de pensar que a esta hora a cinemateca está solitária à espera de que a milícia bolsomínica a depaupere numa noite de facas, fogo ou cristais.
há não somente filmes brasileiros de todos os tempos ali. há raridades de todo o cinema mundial, desde as silenciosas.
uma biblioteca riquíssima, que, pequeno detalhe pessoal, contém dois livros que escrevi.
como vai ser?
vão transformar aquele maravilhoso prédio no matadouro que era antes?
Feitio de oração
Mostra de cinema egípcio traz esta narrativa poética sobre o luto, de 2014

A palavra é imprescindível ao cinema. Ela estrutura o drama. Mas um filme não precisa necessariamente de narradores ou diálogos. A ausência da palavra na tela obriga ainda mais à criação de imagens para expressar um sentimento. Se você quer demonstrar que um personagem está distraído de tristeza, pode colocá-lo sentado na polia de um trem antigo, como fez Buster Keaton, e fazê-lo cabisbaixo enquanto o veículo se move. O cinema, por ser mudo, não dispensa o drama, porque cinema é arte dramática em primeiro lugar.
Contudo, pode também ser arte dramática poética, como esta de Karim Hanafy, O PORTÃO DE PARTIDA (2014). É um filme sem diálogos sobre o luto. Sobre a ausência materna incessante. Sem sua mãe, o pretenso narrador perde-se de si mesmo e se funde nela. Intensificado por um silêncio verbal com música, o filme parece existir para que saibamos como se ligam os seres interiormente. E como a existência é um exercício coletivo da memória onírica.
A mãe embarca atravessada pela luz da janela, paramentada pelos vestígios do passado, as pérolas e o vestido de casamento. O filme evoca a história e o tempo por meio de caminhos e portais. E há também o cemitério, aquele vizinho constrangido da morte. As atuações são pungentes, marcadas por vezes pela câmera lenta. A fotografia ensolarada oscila entre o preto e branco e a cor. É um filme, como poderia ser uma oração.
O PORTÃO DE PARTIDA
Diretor: Karim Hanafy
EGITO, 2014, 65 min
Comigo sempre
estava comentando com uma amiga:
cancelamento é o que mais aprontam comigo.
porque sou jornalista, historiadora e sou mulher.
e vivo neste amado brasil onde minha condição de ser pensante é um atrevimento.
e, pior que muita gente, não tenho influência empresarial, nem dinheiro, nem nada que me defenda.
mas é preciso pensar uma coisa.
não existe cancelamento pra sempre.
existe debate.
existe o que se é.
e basta esperar.
embora a espera seja difícil, eu a espero sonhando, conforme aconselhou o jorge.
e tudo um dia se resolve, porque a verdade é como a força de uma serpente…
de duas cabeças.
Febeapá com Bey
Não sei se vocês leram o artigo de retratação de Lilia Schwarcz. Não o reproduzo aqui, mas, segundo ela diz ali, escreveu de maneira errônea e irrefletida sobre o pretensamente inadequado luxo hollywoodiano em Beyoncé, razão pela qual se desculpa.
Acontece que li e reli as linhas de Schwarcz e mal pude constatar a ausência de admissão real de um erro. Quem errou, ela diz, e isto parece explícito no artigo, foi o redator que aplicou título e linha fina ao que ela escreveu. Quem errou, ela diz, foi a Folha ao exigir de uma pesquisadora de seu porte um texto tão rápido sobre questão primária. E o erro dela foi sua submissão.
Porque Lilia não é de errar. Porque errando, isto é, achando que saberia escrever sobre um assunto aparentemente banal como este sozinha, sem ouvir seus pares e o movimento negro, estrepou-se. E precisou se desculpar de algum modo com as comunidades que dão sustentação a seu trabalho de historiadora.
Sei bem como são intrínsecas e entrelaçadas as relações dos Schwarcz com a Folha. Interdependência, interligação, nem sei que nome dar aos telefonemas da editora de seu marido para garantir aos jornalistas da casa exclusividade em entrevistas e leituras antecipadas de cópias de livros.
Toda a vida da Cia das Letras está tão estritamente ligada à da Folha que é difícil que eu imagine, apontada sobre a cabeça acadêmica de Lilia, uma arma qualquer empunhada pela ralé jornalística.
Até fantasio que uma bela noite num desses jantares com a direção do jornal ela tenha se animado a lamentar o luxo consumista de Beyoncé e algum presente, no momento de montar a pauta, apenas pediu que a historiadora transcrevesse seu pensamento tão informalmente bem expresso antes.
Alegar irreflexão é um pouco melancólico da parte de Lilia, que vive de refletir, e nos últimos tempos o tem feito de peito aberto, de modo a nos alertar sobre a perda gradual de nossas liberdades sob este regime de milícias. Mas – fico com isto – pelo menos ela provou uma retratação. Ninguém suporta tanto febeapá cotidiano, ademais partido de uma de nossas mais festejadas intelectuais.
QI de abelha
Não me emociono se penso que Toller votou no Tolo. Ou deixou o Tolo ganhar. Ou se nada fez para que o Tolo perdesse, até ganhando causa de 200 mil contra Haddad e o PT pelo uso (que ideia mais boba do partido, gente) da canção do QI de Abelha na campanha.
Nana também votou em Bolsonaro. Toquinho também. Djavan também, talvez. Desejo a Nana e a Toquinho toda a felicidade. Djavan está em mim. Vou ouvi-lo sempre, forever and ever.
E Toller, meus amigos, bonita ou não, conservada ou não (todas nós cinquentonas podemos nos orgulhar de nós mesmas neste aspecto, certo?), nunca habitou meu panteão.
Mas se habitou o seu, não ligue pra nada disso. Essas pessoas escrevem e interpretam canções, não necessariamente veem a vida como nós.
Os olhos arrancados do Brasil, segundo Pasolini
Eu me sentia em dívida com vocês, uma vez que tanta leitura teve outro post deste blog sobre a produção poética de Pasolini, intitulado “Pasolini em Recife”. E agora creio que acalmo minha consciência ao lhes mostrar o outro grande, imenso poema que o cineasta fez sobre o Brasil.
Em 1970, durante sua viagem à América do Sul para participar de um festival em Mar del Plata, no qual apresentaria “Medeia, a feiticeira do amor” (1960), Pasolini visitou brevemente o País. Fez uma escala no Rio de Janeiro, foi obrigado a um pouso de emergência em Recife, na ida, e rumou a Salvador, por fim. O Rio de Janeiro inspirou-lhe a escrever “Hierarquia”, que segue aqui com tradução de Mariarosaria Fabris.

HIERARQUIA
Pier Paolo Pasolini, 1971
Se chego a uma cidade
além do oceano
Muita vez chego a uma nova cidade, levado pela dúvida. Tornado de um dia para outro em peregrino
de uma fé na qual não creio;
representante de mercadoria faz tempo sem valia,
mas é grande, sempre, uma estranha esperança –
Desço do avião com o passo do culpado,
o rabo entre as pernas, e uma eterna vontade de mijar,
que me leva a andar meio dobrado, com um sorriso incerto – Livrar-se da aduana, e, muita vez, dos fotógrafos:
fato corriqueiro que cada um encara como se fosse exceção.
Depois o incógnito.
Quem passeia às quatro da tarde
por canteiros cheios de árvores
e alamedas de uma desesperada cidade onde europeus pobres vieram criar de novo um mundo à imagem e semelhança do seu, levados pela pobreza a fazer do exílio sua vida?
Com um olho em meus afazeres, minhas obrigações –
Depois, nas horas vagas,
começa minha busca, como se ela também fosse uma culpa –
A hierarquia, porém, está bem clara na cabeça.
Não há Oceano que aguente.
Desta hierarquia, os últimos são os velhos.
Sim, os velhos a cuja categoria começo a partencer
(não falo do fotógrafo Saderman que, com a mulher já amiga da morte, me acolhe sorrindo
no pequeno estúdio de toda uma vida)
Sim, há algum velho intelectual que na Hierarquia
está à altura dos mais belos michês
os primeiros que se encontram nos pontos logo achados e que, como Virgílios, conduzem com popular delicadeza algum velho
é digno do Empíreo,
é digno de ficar perto do primeiro garoto do povo
que se oferece por mil cruzeiros em Copacabana
os dois são meu guia
a segurar-me pela mão com delicadeza,
a delicadeza do intelectual e a do operário (quase sempre desempregado)
a descoberta da invariabilidade da vida
requer inteligência, requer amor.
Vista do hotel de Rua Resende, Rio –
a ascese exige sexo, exige caralho –
aquela janelinha do hotel onde se paga pelo quartinho – se olha dentro do Rio, num aspecto da eternidade,
a noite de chuva que não traz refrigério,
e molha as ruas miseráveis e os entulhos,
e os últimos beirais do art nouveau de portugueses pobres sublime milagre!
E assim Josué Correia é o Primeiro na Hierarquia,
e com ele Haroldo, veio menino da Bahia, e Joaquim.
A Favela feito Cafarnaum debaixo do sol –
Cortada pelas valetas do esgoto
um barraco em cima do outro, vinte mil famílias
(ele, na praia, pedindo-me um cigarro como se fosse um puto)
Não sabíamos que aos poucos iríamos nos revelar, prudentemente, uma palavra depois da outra,
dita quase distraidamente:
eu sou comunista, e: eu sou subversivo:
sou soldado de uma divisão expressamente treinada
para lutar contra os subversivos e torturá-los;
mas eles não sabem;
as pessoas não se dão conta de nada;
elas pensam em viver
(me fala do lumpemproletariado).
A Favela, fatalmente, nos aguardava
eu grande entendedor, ele guia –
seus pais nos acolheram, e o irmãozinho nu
que acabara de sair de trás da lona –
pois é, invariabilidade da vida,
a mãe
falou comigo como Maria Limardi, preparando a limonada sagrada para o hóspede; a mãe encanecida, mas de carnes firmes; envelhecida como envelhecem as pobres, e ainda garota; sua gentileza e a do companheiro,
fraternal com o filho que só por sua vontade
agora era um mensageiro da Cidade –
Ah, subversivos, busco o amor e encontro vocês.
Busco a perdição e encontro sede de justiça.
Brasil, minha terra,
terra de meus amigos à vera,
que não se interessam por nada
ou então se tornam subversivos e feito santos são cegados.
No círculo mais baixo da Hierarquia de uma cidade,
imagem do mundo que de velho se faz novo,
coloco os velhos, os velhos burgueses,
pois um velho da cidade, se é do povo, fica garoto
não tem nada a defender –
vestindo camiseta e calção surrado como Joaquim, o filho.
Os velhos, minha categoria,
quer queiram ou não queiram –
Não se pode fugir do destino de deter o Poder, ele se coloca por si
lenta e fatalmente nas mãos dos velhos, apesar de eles serem mãos-furadas
e sorrirem humildes feito mártires sátiros –
Acuso os velhos de terem vivido seja como for, acuso os velhos de terem aceitado a vida
(e não podiam não aceitá-la, mas não existem vítimas inocentes)
a vida, ao acumular-se, deu o que ela queria – acuso os velhos de terem feito a vontade da vida.
De volta à Favela onde não se pensa em nada
ou se almeja ser mensageiros da Cidade
lá onde os velhos são americanófilos –
Entre jovens que jogam, bravos, futebol
diante de cumes encantados sobre o frio Oceano,
quem quer algo e sabe, foi escolhido ao acaso –
inexperientes em imperialismo clássico
em delicadezas para com o velho Império a ser explorado.
Os americanos dividem entre si os irmãos supersticiosos
sempre aquecidos pelo próprio sexo como bandidos por uma fogueira –
É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados.
Joaquim nunca poderia ter sido diferente de um sicário.
Então, por que não amá-lo, se assim fosse?
O sicário também está no vértice da Hierarquia,
com seu traços simples, mal esboçados,
com seu olhar simples,
sem outra luz do que a da carne.
Assim, no topo da Hierarquia,
encontro a ambiguidade, o nó inextricável.
Oh, Brasil, minha desgraçada pátria,
voltada sem escolha à felicidade,
(de tudo são donos o dinheiro e a carne,
enquanto você é tão poético)
Em cada habitante seu, meu concidadão, há um anjo que não sabe de nada, sempre curvado sobre seu sexo,
e se agita, velho ou jovem, para pegar em armas e lutar,
pelo fascismo ou pela liberdade, é indiferente – Oh, Brasil, minha terra natal, onde
as velhas lutas – bem ou mal já vencidas –
para nós velhos tornam a fazer sentido – respondendo à graça de delinquentes ou soldados, à graça brutal.
Anacronismo
Amo essa fase de nossa história do pensamento, quando ainda fazia sentido exaltar o pensamento (e até o pensamento como um sentimento), em que se lamentava a incomunicabilidade humana.
Curioso que todos hoje tenham se rendido à inevitabilidade disso. Porque a incomunicabilidade ainda existe, certo? Não é só coisa nascida dos filmes de Antonioni.
Ela existe e me exaspera.
Pietrangeli, cineasta das mulheres

ÁDUA E SUAS COMPANHEIRAS
por Rosane Pavam
(republicado do site Histórias de Cinema)
Repare nas mulheres deste filme. Cada beleza é uma fortaleza diante dos homens. E repare nos homens, até em Mastroianni. Todos vis.
Você sai de “Ádua e Suas Companheiras” (1960) sem confundir os personagens porque se trata de um filme de Antonio Pietrangeli, nítido, belo, triste.
Ele aqui ainda não tinha se tornado um dos grandes da commedia all’ italiana, resposta do cinema ao teatro medieval da fria essência humana. E detestava este filme talvez por não ser, neste sentido, “cômico”.
“Ádua” ainda correspondia ao neorrealismo heróico. Pietrangeli sabia disso porque trabalhou como assistente de Visconti e lutou pelo movimento quando se tornou crítico de cinema, depois de cursar medicina.
Ele queria mais, bem mais que a Cabíria de Fellini, encenada três anos antes. Era o diretor das mulheres. Estava no mundo em breve passagem para mostrar o abismo diante delas, seus corpos trágicos insubmissos.
Neste filme, elas habitam o bordel de Simone Signoret, florido por Magali Nöel e firmado por Emmanuelle Riva no papel de mãe. Mas Signoret não é aqui a Joan Crawford de “Johnny Guitar”. Não há redenção para ela, embora tudo o que o cinema peça esteja lá, como esteve em Mizoguchi: um fruto da criação do espaço público para discutir nosso destino circular, em eterno retorno a seu início.
Rosane Pavam é doutora em História Social pela USP com a tese “Retratos do Épico Cômico: Totò, De Sica e a commedia all’italiana”
ÁDUA E SUAS COMPANHEIRAS
Diretor: Antonio Pietrangeli
Itália, 1960, 106 min
Disponível na Amazon Prime Video
Covideiros paneleiros
É verdade que só comecei a assistir a esta série zúmbica do Cláudio Torres, cineasta da Conspiração e filho da Fernanda Montenegro, porque o Mauricio Tagliari fez a trilha original. Mas vai daí que estou me divertindo à beça e gostaria de recomendá-la aos da quarentena eterna.
Os zumbis podem ser qualquer coisa em Reality Z – paneleiros, covideiros -, porque toda a ameaça que o Torres encena no Rio ou na Globo se encaixa em nossa desgraça brasileira.
Divirtam-se, vocês que tanto gostaram de Bacurau!
