Blog

Porta dos Fundos não é Python

Bem.

Deixa eu esclarecer, pra quem se interessar pelo que vou dizer.

Não terminei de ver o Porta dos Fundos de Jesus, mas vou clicando todo dia no Netflix pra aumentar a audiência do programa e desbancar esses censores de m.

É uma campanha que auto-lancei e vc pode aderir.

E não terminei de assistir ao programa porque não gostei do que vi até o momento.

Basicamente, não ri.

Não gosto muito do Porta dos Fundos, pra ser sincera (e nunca conto isto pra ninguém, porque já viu; estou à espera dos comentários “mas eu gosto”: mandem!).

O que eles fazem de melhor, penso, está nesse espremer sem fim do ceticismo religioso do Monty Python.

Mas eles não são o Python pra alcançar seu patamar cômico.

Não amarram o roteiro com situações surpreendentes.

E não são atores espetaculares como os Python, isto é, jamais chegam à desenvoltura física do cinema mudo, na base do humor inglês.

Além disso, seus rostos não parecem propícios à comédia, à máscara.

Não são Chico Anysio, por assim dizer.

Humor de palavreado tem de ser extraordinário para funcionar.

E, ainda assim, vai precisar de intérpretes à altura das palavras.

Já vi o jornalismo satírico à moda estadunidense do Duvivier, o Greg News, e acho que funciona bem em alguns momentos (me aborrecem as risadas de claque).

Aí estamos no terreno da palavra do noticiário, e falar ele fala bem.

Humor não é só piada.

Aliás, nem precisa dela.

Humor é crítica.

Talvez um dia o Porta dos Fundos chegue lá.

Minha conversa sobre “Carnival Strippers”, de Susan Meiselas, no IMS

Rosane Pavam durante conversa na galeria do IMS sobre Susan Meiselas. Foto de @OlgaVlahou

https://youtu.be/MO9lqIZ8Ryo

https://ims.com.br/exposicao/susan-meiselas-mediacoes-ims-paulista/#videos

Da Venezuela ao passado onde vivo

Morar no centro tem sido minha alegria neste ano que já se vai.

Aliás, ele se vai, mas não desejemos que parta tão já.

Vamos curtir o que resta deste ano, porque como me disse um músico ontem, o Marcos Mauricio, tudo vai piorar no ano que vem.

Então vamos curtir o sol e as árvores…

E antes que você me pergunte: há miséria onde vivo, sim.

Mas a cidade inteira tem sua porção.

São Paulo se enche dela.

Me interessa a luz do centro.

Gosto de me centrar.

Às vezes me parece que, neste lugar onde reside o caos calmo dos meus afetos, volto à infância.

Um comportamento… um jeito de falar que é só daqui e que é pra mim…

E os prédios da Light e do Mappin que ainda estão lá, além de todos os caminhos que levam à Sé, à Liberdade, à Mário de Andrade!

A linda biblioteca para onde, criança, eu ia ler e estudar, já que não tínhamos muitos livros em casa, exceto os maravilhosos de arte de meu pai e duas enciclopédias: a portuguesa Verbo (seis volumes bem fininhos) e a Tecnirama, em fascículos.

Creio que fosse pouca coisa pra minha curiosidade em relação ao mundo, que nessa época me atordoava em demasia.

Sempre morei no meu passado com muito carinho.

Mentalmente.

E agora fisicamente também.

Pois sexta-feira ia naquele caminho bem andado quando o garoto de 15 anos da foto se aproximou de mim em cima de sua bike.

Me perguntou se eu sabia onde vendia brinquedo.

Fiquei meio confusa. Não achei que nada ruim partisse dele. Mas falava portunhol, eu não compreendia bem.

Queria comprar brinquedo, mas não de criança.

Não brinquedo de brincar.

Bonecos, assim.

Disse a ele que havia lojas especializadas nesse setor em duas galerias.

Ele não as conhecia.

Perguntei se queria que eu o levasse até lá, já que estavam próximas de meu destino.

Quis.

Então lhe perguntei de que tipo de bonecos gostava.

“Não são pra mim.”

“São pra sua namorada?”

“Ainda não. Não é minha namorada.” Riu. É só sorrisos.

“Ah, então é pra conquistar…

“Não sei se vou conseguir. Mas já fiz o desenho dela olhando a foto do WhatsApp.”

“Você é desenhista?”

“Sou.”

“Que bacana. Mas, olha, os brinquedos às vezes não são baratos.”

“Meus pais compram pra mim se eu for bem na escola.”

“Em que série você está?”

“Primeira do Ensino Médio.”

“E passou de ano?”

“Ainda não sei” (um riso grande). “Vou ver uma nota na segunda.”

“E de onde você é?”

“Como assim?”

“Onde nasceu?”

“Venezuela.”

“Que legal! Conheço um venezuelano que faz um documentário sobre os compatriotas no Brasil. Foi até Rio Branco.”

“Eu também.”

“Você veio de lá?”

“Não, eu moro na Rio Branco.”

“A avenida! Entendi. Você veio pro Brasil com sua família?”

“Primeiro vieram meu pai e meu tio. Depois vim com minha mãe.”

“Você gosta daqui ou pensa em voltar?”

“Penso em voltar.”

“Lá está ruim, né?”

“É aquele presidente.”

“Sim, imagino. E o que vocês achavam do Chavez?”

“Bom. Muito bom. Com ele não tinha ninguém morando na rua, hoje tem. Ninguém passava fome, hoje passa. Ele protegeu as áreas dos índios. Não quis saber dos Estados Unidos. E ele falava três línguas, sabe?”

“Não sabia. Quais? Espanhol…”

Mais um riso longo.

“Lá não falamos espanhol. É castelhano.”

“Claro!” (rio de volta). “E que outras línguas?”

“Guarau.”

“Língua indígena?”

“Sim.”

“E a terceira?”

“Não sei.”

“Que bom que Chavez era bom. Aqui falam mal dele, é incrível.”

“Também falam mal de Lula, não? As pessoas são muito ignorantes.”

“Pode ter certeza! Olha, chegamos na galeria.”

“Eu não posso entrar com a bicicleta, só vim ver onde comprar. Depois volto. Obrigado.”

“Como você se chama?”

“Elker.”

“Legal te conhecer, Elker. Sou Rosane. Posso te fotografar?”

Manicures de Bolso

Tive de travar inesperados embates com manicures durante a eleição no ano passado.

Trabalhadoras de salão, mas não registradas por ele, as moças que cuidavam de nossas mãos e pés em São Paulo absorviam o discurso classe média antiDilma das clientes, embora morassem na periferia e não fossem de classe média como aquelas que pagavam por seus serviços.

Bolsonaro lhes parecia então uma incrível solução: afastaria os petistas que destruíram o Brasil, segundo a análise de suas patroas e clientes, e não apenas isto: mataria também todos os bandidos e racistas que as ameaçavam nos bairros longínquos, tão logo assumisse o poder.

Hoje as manicures dos salões paulistanos acordaram sabendo que não poderão usar a MEI para trabalhar. E que estão desamparadas, perigosamente próximas do subemprego, enquanto seus filhos inocentes continuam na mira do bandido comum e do bandido policial militar.

Gosto de pintar minhas unhas, embora não saiba fazê-lo por mim mesma. Mas desisti de manicures de salão. Cansada de guerra, sei que a esta altura, em lugar de culpar Bolsonaro, elas jogam sobre o PT toda a culpa pelo estado de coisas.

Ou me engano?

Obi-wan e meus pés

Em 7 de dezembro de 2016.

Sonhei com o Ewan McGregor. Eu passava por um corredor e o via numa cadeira de metal bebendo com amigos. Dizia-lhe oi. Ele morria de rir. E eu retrucava diante da figura de cabelo comprido, um pré-obi-wan: “Dou oi pra todo mundo, em todo caso, porque sou míope, não só por ser você.”

Que raio de sonho com Ewan, quando na semana inteira pensei em Alain Delon, sobre como se dava isso de ele ser uma divindade fria? (Enquanto do outro ator, nos últimos tempos, tenho mais apreciado seu perfil no Instagram: motocicletas e causas, causas e motocicletas.)

Ewan queria me dar uma entrevista, mas não conseguia falar. Não se lembrava de nada. E eu, paciente, à espera. Tanto esperava que perdia meus sapatos. E, largada no boteco sujo à noite, saía pra casa de meia, pelo chão alagado, sem saber como voltar.

Barreto, Bishop e o comunismo de arregalar os olhos

Não percam o perfil do Felipe Fortuna no facebook, pois ele está a nos atualizar deliciosamente sobre as porcarias ditas e escritas pela Bishop sobre o Brasil.

Até parece brincadeira. É de desmontar qualquer afeto.

Agora entendo por que, numa ocasião, o Bruno Barreto me disse que seu filme sobre Elizabeth e Lota, “Flores Raras”, era o melhor que já tinha feito.

O Barreto é tão reaça que no meio de um jantar, quando eu lhe contei que minha tese girava em torno da commedia all’italiana, arregalou os olhos. “Mas você não fala sobre o Monicelli, né? Era um comunista, o Fellini me contou!”

E eu: “E daí, velho?!”

Quem desliga a chave?

02.11.18

talvez vocês não tenham idade pra saber, mas no seriado camp do batman as paredes frequentemente ameaçavam espremer nossos gay-heróis capturados por gay-vilões.

pois me sinto batman & robin há muitos e muitos anos, tentando segurar as paredes, sem que nunca me deixem conseguir…

tendo de aguentar tropa de elite & sertanejo & big brother & outras porcarias de nossa indústria cultural apenas porque são populares e porque a esquerda, sem querer ser chamada de elitista, não as poderia refutar…

santa burrice!

era por onde a ditadura começava a entrar!

nossa esquerda, dita esquerda, não foi a heroína cultural que deveria ter sido, lamento dizer. nunca pensou em desligar essa chave. adorou a chave. e agora as paredes estão próximas.

mas ao mesmo tempo, né?

estamos só no começo.

quero mandar o cara do uber desligar o som!

aqueles cantores que parecem o porco sob a faca…

e suas letras de corno transcorridas em dubais sentimentais, onde a métrica é insolúvel, “segredos” rima com “erros” e a incapacidade de articulação transborda para nossas vidas…

batman, robin, quem vai desligar a chave?

Mother and child

And I say to myself

Between the years,

Between learning to walk and growing up,

There is a promise in these brown eyes,

There is a promise so old that it is always new.

And I say to the world, proudly:

This is my present to you,

These brown eyes with their promise.

And in the still night I say to you, fondly;

Now I begin to understand.

This promise is so old that is forever new.

These brown eyes were a present to me,

Now I give them to you.

Nell Dorr em “Mother and Child”, 1954.

a imobilidade construída

pergunte o que são os três poderes ao brasileiro pobre, mesmo se formado no ensino médio.

ele saberá lhe dizer?

pergunte-lhe o nome dos três últimos presidentes do brasil.

inquira a ele o que é justiça, para além do justiçamento.

o que é um prefeito, um governador, um vereador.

é o déficit programado de conhecimento o que nos deixa imobilizados no estado atual.

e também a polícia, sim.

o estado policial.

o discurso que culpabiliza manifestações, inclusive aquelas que explodem vidraças de banco.

a imobilidade não é um acomodamento brasileiro, como nos querem fazer crer até mesmo aquelas irresponsáveis publicações tidas por esquerdistas.

a imobilidade foi cuidadosamente trabalhada, anos a fio.

sobramos alguns de nós mesmos.

e jovens valentes, buchas do canhão de sempre.

Nenhuma a menos

De 19 de outubro de 2016

Adoro Buenos Aires. Mas preciso dizer. Que decepção quando viajei para lá a primeira vez, há um quarto de século. Sozinha. Somente Salvador se equiparava então, por minha experiência, em machismo praticado contra uma turista solitária.

Estranhei o quarto de hotel onde me colocaram. Fiquei no segundo subsolo, a janela diante da parede. Reclamei, nada foi feito. Prossegui. No meu andar se hospedavam duas brasileiras em um quarto. Demorou três dias até eu perceber que se esquivavam de meus cumprimentos. Recebiam uns tipos à noite.

Fui almoçar em um restaurante na avenida Nove de Julho. Na hora de pagar a conta, me disse o garçom, loiro de olhos azuis: “Saio às quatro, me espere na rua X”. Fiquei assombrada. Achava que só no Brasil, como acontecera na Bahia antes, eu seria chamada às vias de fato por estar sozinha em uma mesa: “Por que tá dando uma de difícil comigo, porra?” – perguntou o sujeito que se sentou na cadeira em frente à minha, no Zanzibar, sem permissão.

Não estranho, infelizmente, o feminicídio na Argentina.

E aproveito para dizer: nenhuma a menos.