Algo como a morte

Certa vez um editor me pediu para fazer matéria sobre determinado volume de ensaios do Otto Maria Carpeaux.

Fiquei muito feliz com a incumbência.

Até demais.

Pensei: como um assunto bom desses caiu comigo e não com os lobos de sempre?

Não demorei a perceber que se tratava de uma armadilha.

Ao abrir o livro, vi que fora organizado por Olavo de Carvalho.

Isto faz tempo, vinte anos, mas Olavo já era então uma porcaria. Astrólogo que maltratava mulheres e se dizia filósofo. Uma porcaria não por ser reaça, mas por ser Olavo mesmo.

Meu editor havia batido boca com ele pelo jornal em torno de uma pseudoquestão erudita. Meu editor também era reaça, jovem discípulo do Francis, condição que os jornalistas “de cultura” da época almejavam.

(Uma professora da ECA deu de comparar meu estilo ao do Francis, sei lá por quê, e eu, mesmo aluna dela, rejeitei ofendida a comparação. Queria pra mim um vigésimo da iluminação de Lúcia Miguel Pereira! Deixa o Francis pros meninos!)

O editor havia então me dado o livro como tarefa porque não queria se ver com o astrólogo novamente.

O discípulo do Francis, que se achava melhor que o Francis, me disse o seguinte: que eu poderia fazer a matéria sobre o Carpeaux desde que não entrevistasse o organizador do livro.

Estranho, né?

Mas, do meu ponto de vista pessoal, magnífico.

Meu editor quis me colocar no fogo e eu fingi que não percebi. Na época tinha dois bebês em casa, trabalhava e saía correndo pra amamentar e medicar. Escrevia nos intervalos da vida. Não ia perder tempo com essa preocupação.

O que eu não sabia era que observar qualquer coisa sobre Olavo vinha já acompanhado de muitas ofensas virtuais.

Desconhecia sinceramente o eco de suas aberrações pronunciadas e fiz a reportagem.

Escolhi um sobrevivente da época do Carpeaux para que descrevesse o crítico pra mim. Era o poeta Sebastião Uchoa Leite, o melhor tradutor da Alice do Lewis Carroll. Ele havia trabalhado como estagiário numa enciclopédia dirigida pelo crítico, e crescido a seu lado a partir de então. (Não me recordo bem que caminhos me levaram a esta informação que funcionou como descoberta na época.)

Um gênio poético, um ensaísta, um homem das palavras, gente muito boa. Uchoa Leite tornou-se minha fonte amiga.

Mal saiu a matéria, o Olavo começou uma campanha contra mim nos seus espaços e naqueles de seus discípulos. Não reconhecia Uchoa Leite como discípulo. Disse que eu tinha inventado a história! Por ter deixado de ouvi-lo, gracejou, eu deveria ingressar na dupla sertaneja pavam-pavamzinho. Por meu lado, eu certamente esperava um insulto melhor…

(Não foi o único a correr atrás de mim na vida jornalística, claro. Me vi perseguida por umas figuras a quem, como a ele, inicialmente não dava a menor importância, e pensando bem, ainda não dou. Entre outros, por Paulo Coelho, que jurou lançar seus poderes de guerreiro para obstruir minha “luz”; por Pablo Capilé, que não se dirigiu a mim pessoalmente, preferindo em lugar disso ordenar o ataque de suas galés.)

Ser achincalhada por Olavo, aprendi, equivalia a um certo elogio. Não que tivesse me achincalhado, na verdade. Não falei nenhuma bobagem no texto, por sorte, e ele não tinha por onde andar. Mas como ousei não entrevistá-lo para realizar a matéria?

Na redação, todos comentavam os ataques de Olavo a minha pessoa com inveja clara.

E eu tinha de contornar os lobos jornalistas feridos por minha fama!

Muito divertido e tal.

Mas ninguém consegue imaginar isto hoje, estou certa.

Olavo, ele próprio, interessado em organizar os ensaios de um Carpeaux!

A vertigem da queda transformou-o em algo diferente, não?

Algo como a morte.

quase kafka

acordei de um pesadelo.

minha antiga insana patroa morava comigo.

e eu não conseguia tirá-la de casa.

(lá onde eu vivia com uma porção de gente.)

somente eu sabia quem era aquela mulher de fato.

minha família a tratava bem porque não atestara seus malfeitos.

meus mínimos gestos, vestuário, cabelo, bijus, tudo se tornava objeto de seu sarcasmo quando estávamos sós.

“mas ela só está brincando. ela é de esquerda, ela é do bem”, argumentavam os próximos, se eu reclamasse.

a certa altura eu abria a porta da casa.

ventava.

e na calçada a mulher ria feito gralha diante do witzel, a quem, submissa, solicitava o revólver.

eu sabia que vivia uma ditadura.

mas minha família não tinha como saber.

Uma psicologia

Certa feita entrevistei Marisa Orth.

No final dos anos 1990, a atriz começava a ser interessante aos globais.

Ficamos a conversar quase três horas no camarim.

A Marília Pêra enciumada.

Sua pupila em cena despertava atenção além do palco!

Mas, enfim, acho que pratiquei com a Marisa algo aproximado ao que ela estudara na PUC.

Uma psicologia.

Bem, eu não sei entrevistar ninguém.

Converso. Ouço. Analiso. Me atrevo.

E no geral dá certo.

(Não deu com o Vargas Llosa, grande escritor, grande pulha, mas tudo bem.)

Creio que a Marisa falou demais e que eu publiquei de menos.

E que esse equilíbrio é duro pra quem escreve.

Pouco espaço pra expressar tantas ideias conversadas…

Mas não só!

Há que considerar: são blefes ou ideias originais o que proferem diante de nós?

E por que destacaríamos o blefe, não as verdadeiras ideias, comumente más candidatas ao interesse público?

(Jornalismo dos anos 1990, friends. Não riam. Havia lugar pra exercer essas ponderações. Pasmem, com um editor que em tempos atuais virou uma das máximas expressões da direita política…)

Enfim, o que eu queria contar é que gostei muito da Marisa.

Pessoa da minha idade, divertida, reflexiva, essencialmente maluca como eu.

Porém me decepcionei…

Achei que o ego dela não iria tão longe, vê se pode!

(Sei lá, o meu nunca foi).

Perguntei-lhe a certa altura, segura de que três horas depois já a conhecia:

– Querida, como você aguenta trabalhar com o Miguel Falabella?

E ela não pensou muito.

– Entendo o que você quer dizer.

Eba!

– Mas sabe o quê? Viajo com ele pelo Brasil e sei como ele é famoso! Muito! Você nem imagina! Todo mundo conhece o cara!

Ai, meu deus.

UMA SALA DE AULA, UM VIOLÃO

Quando eu era criança, nos anos 1970, aprendi uma piadinha e decidi contá-la a meu professor de português.

Não a um professor qualquer.

Decidi contá-la a Herr Frehse ele-mesmo.

Alemão na minha escola alemã, ele era implacável por fora mas amoroso lá dentro. Um apaixonado pela cultura brasileira. O melhor professor de línguas que eu tive. Não só de alemão, como também de português.

Alto, magro, usava o cabelo curto grisalho com topete. Na sua arcada superior faltavam os dentes de trás, algo muito evidente quando ele decidia nos bronquear (e desafiar, porque improvisava com humor sobre nossas respostas) com um sarcasmo de príncipe.

Ia trabalhar de terno e gravata. Tinha apenas dois ternos, um azul e um marrom, mas preferia o marrom (e eu ficava alerta quando ele vestia o azul: o que estava tentando nos dizer?). De terno amassado mesmo vigiava o recreio e ironizava os engraçadinhos que surfavam no corrimão.

Ele era o professor que enfrentava qualquer problema. Por “qualquer” entenda nós, os bolsistas, “problemas” vespertinos separados dos estudantes particulares matutinos. Os pobres que precisavam de vigilância acima de todos. Mas eu era criança. Que se danassem os vigias.

Herr Frehse tinha mais uma particularidade. Uma fraqueza? O filho danadíssimo, que desafiava sua inteligente rigidez. Eu o apelidei de Sobrinho do Capitão, numa referência ao desenho do Rudolph Dirks que meu pai me ensinara a amar (eu era a única menina entre as amigas a ler quadrinhos), obra que, por sua vez, simplificava o clássico Max und Moritz, do Wilhelm Busch.

O filho do Frehse parecia um Frehse em miniatura. Mas tinha a franja lisa. Mas era baixinho. Por isso, surfava no corrimão melhor do que nós.

Logo o filho do capitão…

O menino estudava entre os refinados da manhã, mas era um incontrolável em classe e não se intimidava com as proibições. Como deveria ter sido o professor criança, imaginei. Misturava-se a nós à tarde porque precisava esperar o pai sair do trabalho e levá-lo pra casa de fusca.

Só uma vez Herr Frehse me chocou pra pior. E justamente quando mostrou se encaixar no terrível estereótipo alemão, ao ironizar a “avareza” do judeu. Justo ele, que tratava com um carinho bávaro os pretos que éramos e os nordestinos de quem descendíamos. Até hoje não sei se ele disse o que disse ou fui eu que não entendi a brincadeira.

Eu o admirava. Eu o seguia. Todo o tempo quis ser rápida como ele. Irônica como em seus raciocínios. Não era uma ironia que me humilhasse.

E eu queria desafiá-lo pelo menos uma vez, mesmo sem saber contar piada. (Até hoje não sei, enquanto meu marido é um mestre).

Então decorei a pegadinha que roubei de uma amiga. Ou melhor, pensando bem, apenas eu entre as amigas me dispus à coragem de contá-la a Herr Frehse. Ele não esperava coisa semelhante partida de mim, quietinha lá atrás. Só eu poderia lhe causar o efeito humorístico da surpresa.

(E me orgulho disso, pensando bem. Fui bastante cruel, como ele me ensinou a ser. Encontrei seu ponto fraco nessa paixão pelo Brasil e, rá, o ataquei.)

Fui até sua mesa com a cara triste.

– Professor, aconteceu uma coisa terrível.

– O quê?!

– Eu soube hoje.

– Diga logo.

– O Vinicius morreu!

– O Vinicius de Moraes??! Como??

– Pisou no Toquinho, professor!

Nunca antes havia sentido tão perto de mim a ausência de seus dentes de trás.

ÁGUA SANGRANDO NAS PEDRAS DOS MEUS VINCOS

Após tantos dias acometida de eleição e de gripe, enfrento o chuvisco frio para ir à ioga noturna.

Adoro meu professor, um paraense de baixa estatura que faz nu artístico e celebra o amor homossexual no seu instagram.

Sou a primeira a chegar. Ele parece ter sentido a ausência. Me pergunta como estou. Entendo que são dias tristes.

Frios?

E tristes, sigo.

(Eu não tenho sabedoria.

Muito menos espírito de cautela.

Nem sei como envelheci.)

O professor capta meu ponto e tem uma opinião:

“De todos eles, só estou feliz com o Moro.”

Claro.

“Não acredito nele”, respondo.

E sorrio.

Porque não conheço antídoto pra água maldita.

“Temos de espalhar a luz”, assevera o professor.

Mas é claro.

Me resigno.

Noite de meditação.

Fazemos respiração de fogo, saudação ao sol, vela, torção.

E só depois meditamos, aquecidos.

Tanto movimento resulta que eu esqueça o Morostê.

O professor pede que meditemos sobre uma deidade de nossa própria religião.

Ou que pensemos em alguém de luz.

Na hora vejo meu pai.

Mas combato a ideia.

Não sei por quê.

Procuro mais alguém.

Não chega.

E então me fito menina, animada e pensativa, nas fotos dele.

Numa imagem incomum que extraiu de mim aos seis anos, com ares de atrevimento, na praça 14 Bis.

Não sei se as lágrimas começaram antes ou depois de visualizar o que eu fui.

Mas elas ficaram incontroláveis quando finalmente nos sentamos pra meditar.

Água sangrando nas pedras dos meus vincos.

Todos de olhos fechados.

Todos, menos o professor.

Eu sempre estou pronta para cantar a canção, mas não vou conseguir agora. Limpo as maçãs com as duas mãos, pego o papel pra assoar o nariz, viro pra trás, arrasto o tapete.

Pai que não terminou o que pôde.

Pai que acreditou no tempo.

Pai para quem a morte jamais vingaria.

Pai nascido humilde dos humildes.

Sou filha despreparada dele.

Que errou mais que ele.

Que se sente só quando ele não está por perto para valorizar o seu pensamento sobre qualquer coisa, a sua beleza, a sua carreira, os seus livros, a sua viagem, a sua casa, os seus filhos, e até mesmo para dar a suas fotografias uma benção de corado orgulho.

Meu pai amava tudo o que eu tentasse.

Até dissesse.

Quietinho pra me ouvir e complementar, nós dois falando esquisitices com os olhos na direção do céu.

Um pai para perdoar o fato de que eu às vezes não conseguia sair do lugar nesta vida.

Coisa natural!

Era ele comigo.

Pus óculos pra disfarçar os rios.

E atrapalhei o namastê final, que o professor de ioga disse bem baixo, a observar meus olhos de ressaca do Tamanduateí.

No final me procurou para saber (porque havia lhe contado e porque precisava puxar assunto) como eu me saíra na banca de qualificação da Simone, e eu disse que sim, que gostei, que foi bom ajudar um pouco quem quisesse, ademais uma menina tão inteligente.

Tchau.

E fui tomar um suco.

Daí pra rua.

E desde então o choro no meu pé.

Meu pai nunca entendeu a ditadura. Achava que lhe falavam a verdade.

Depois descobriu que não.

Eu sou pior, pai.

Não entendo se o que vejo é o que existe. Gosto só do que não existe. Não da paisagem lá fora, mas de olhá-la pelo vidro que a entorta e intensifica.

Vai haver sempre alguém mentindo pra mim, pai.

Como houve pra você.

Mas nós teremos um lugar lá em cima onde olhar.

Um lugar inventado, distorcido pela nossa arte.

Crentes de que o fogo em nossas mãos vai tocar o coração de tudo.

Lorca no espelho

“Pipas 096”, 1997

Satisfatória. Assim muitas vezes German Lorca se refere a cada etapa de sua obra durante o minidocumentário dirigido pelo filho José Henrique e exibido na retrospectiva “German Lorca – Mosaico do Tempo, 70 anos de fotografia”, no Itaú Cultural, em São Paulo.

Um artista que classifica como satisfatório cada passo de seu trabalho deve falar a verdade. Não se vive no mesmo patamar, alto ou baixo, quando se produz algo de valor indefinível como a arte. Satisfaz-se com ela. Ou não se satisfaz. E segue-se adiante. Sem que quase ninguém, exceto talvez o artista, consiga entender por quê. A arte está no futuro que dificilmente nos cabe ver.

“WTC Reflexo”, 1970

Em 96 anos de vida, 70 de fotografia, German Lorca segue sempre. Não só por São Paulo, vejam. São Paulo quase não está em jogo aqui. Sua cidade não é documental. O fotógrafo olha para si.

E está armado da ideia de satisfação. Se ela não existe ainda, eu devo procurá-la. Sorrio enquanto caminho. E devo seguir longevo, lúcido, agitado e feliz, mesmo se a procura é dura. A indefinível pirâmide, somente eu posso ver. E estou chegando lá!

“Vaticano colunas”, 1970

Apenas suas fotografias não sorriem. São sóbrias declarações da difícil permanência humana entre as quatro ou mais linhas do campo da vida em que se deve jogar.

Às vezes, são fotos que aspiram ao encaixe, à iluminação, à elevação, como esta do menino que empina pipas.

“Parque Dom Pedro”, 1949

Às vezes, são espelhos de desdobramentos, de inquietudes de quem se perde na cidade  e se fere por seus ângulos, ou busca clareiras.

Às vezes, ele queima por dentro, como quando adota o processo de solarização, aquele em que faz rápida exposição da imagem à luz durante o processamento do filme…

A hora em que o diabo entra!

“Diable au corps”, 1949

Lorca descreve linhas. Vive por elas. Tenta delimitá-las. Elas estão por toda parte, especialmente quando ele faz “arte”.

Sim, porque ele tem esse modo de dizer: quando não trabalho, quando não negocio, sou artista.

E, quando trabalho, tenho felicidade do mesmo modo.

“Moda”, 1960

Mas sempre procuro a linha. Preciso dela. Meu canteiro. Pra trabalhar, pra viver. Fujo dela enquanto a persigo. Gatos e ratinhos.

“Trópicos ou Homem com Guarda-Chuva”, 1951

Esta exposição começa com seus selfies, a provar o que todo mundo a esta altura já sabe, que os selfies, ou autorretratos, existem desde muito antes da internet, desde que o homem começou a fazer parte de um concerto (ou conserto) de ideias, de um ideário do capital. Quando o sistema, antes religioso e perene, disse ao homem “vire-se, você está só”, ele não teve jeito senão parar de olhar um pouco para deus, engolfando-se em si.

Selfies!

O intenso, em Lorca, é que ele faça essa autoprocura muito além dos selfies (que, me perdoe a curadoria, não deveriam começar a exposição, visto que no fim das contas se tratam de ilustrações rasas da personalidade do artista, brincadeiras de esconder).

Sua autoprocura tem, pelo contrário, algo de fé. Ela se expressa não só quando Lorca exibe homens e mulheres religiosos vestidos à maneira medieval, misturados em tarefas tão mundanas como atravessar a rua com uma criança ou pegar a barca enquanto lê um jornal.

“Irmã de caridade”, 1970

Lorca é religioso quando busca um princípio, uma devoção, um centro, quando deixa escapulir pelo Anhangabaú a girafa de um trabalho de publicidade e a coloca em um cercado à vista de todos.

“Ford Jeep Girafa”, 1962

Não é uma imagem fácil de ver.

Todos estão à volta se situam entre o sorrio e o calafrio.

A girafa pode fugir.

A girafa é ele. É seu trabalho.

Grande por se conter.

Mas não lhe peçam contenção, ok?

Meu encontro com V. S. Naipaul

Os melhores e breves momentos de um jornalista são vividos em extrema dificuldade. Ou somos habitados pela ousadia ou não saímos de casa. Dói abrir a porta para a guerra no quinto andar. As desculpas não interessam. Tenha ou não sapatos para a neve, o fuzil precisa caber no ombro e é melhor remendar o furo do capacete. Esteja lá, forte e atento. Tenha sorte.

Entrevistar V.S. Naipaul, morto ontem, aos 85 anos, foi uma dessas horas de guerrear. Ele era impossível. Amargo. Pinicava. A “New Yorker” disse que uma jornalista tinha caído aos prantos diante dele. E a Companhia das Letras não queria me incluir entre os entrevistadores deste Prêmio Nobel sobre seu novo livro. Eu trabalhava no pequeno Jornal da Tarde, que credencial era essa? Mas havia uma pessoa querida na assessoria da editora, a Ruth Lanna. E ela me ajudou a entrar.

Não fiz nada demais antes do dia da entrevista, apenas li o livro. Acho bom ler o livro antes de entrevistar. E muito mais eu não poderia fazer, o tempo era curto. Tinha sido tão bom ler. Me transportei até Balzac, que eu percorria muito na época, 1994.

Naipaul estava em São Paulo para a promoção do livro. Fiquei aliviada. Telefone é do outro mundo. E cara a cara tenho menos medo desses enfrentamentos culturais ou do meu inglês imperfeito, eu diria ruim.

Entrei na sala e ele me olhou de cima abaixo. Analisava meus olhos como um diretor de escola ou um dirigente da polícia secreta. Com uma curiosidade a mais. Eu soltei a língua. Não me lembro direito o que perguntei, mas o comparei a Balzac. “Em que página do meu livro você encontrou a comparação?” Abri a página e a li em português. Ele era casado então com uma argentina. Não achou difícil entender. Divertiu-se.

E nos divertimos. “Não sei por que jornalistas acham difícil me entrevistar. É só ler até a página 100.” Perguntei de sua vida em Trinidad. “Lá não há pessoas tão finas e cultas como você e o Luis Schwarcz.” Ri só por dentro, mas ele ali falava sério. “Em São Paulo, a única coisa terrível é o trânsito.” Perguntei por que fora jornalista: “Pelas viagens.” (Dizer isso pra mim, que viajei tão pouco na profissão… Foi a única vez em que me envergonhei diante de alguém mais inteligente do que eu.)

Continuamos a conversar e ele não queria que o papo acabasse. Do nada me convidou pra jantar. Deus meu. Disse que não podia, porque eu ainda precisava escrever o texto. “Vocês têm muito pouco tempo”, admirou-se. Mas não era pelo tempo. Escrevemos o que podemos, mesmo, em prazos impossíveis. Meu medo era que tudo desse errado num jantar. (Contei essa história a uma ex-amiga, e ela concluiu que ele estava interessado em mim. E cometi o erro de relatar isto também durante uma palestra para jornalistas iniciantes. Gente ruim.)

A reportagem saiu e vai neste pdf V. S. Naipaul (1). Não se esqueçam de que escrevi rápido realmente e que o espaço a mim concedido no jornal resultou bem pequeno.

O Luis Schwarcz me contou que no dia seguinte deu a notícia ao escritor: “A melhor matéria foi a da Rosane.”

E a resposta de Naipaul:

“I knew it.”

David Drew Zingg para poucos

Em 1994, entrevistei o fotógrafo David Drew Zingg para as páginas vermelhas da revista IstoÉ. (leia o pdf David Drew Zingg (1).)

À época, não somente um dos grandes fotógrafos a atuar no Brasil, ele se tornava colunista de um grande jornal, depois de haver contribuído para ajustar a fotografia do diário “Notícias Populares”, de que gostava bem mais.

Drew Zingg, então integrante da banda Joelho de Porco, era o velho anarquista preferido por todos nós. Não sei se por todos nós da redação, na verdade. Provavelmente não por eles… Mas por mim, certamente. E por meus poucos-grandes-geniais-amigos de combate.

Contudo, quando o entrevistei em uma tarde de verão daquele ano tão distante, ele não se parecia de modo algum com um anarquista.

Conversava comigo apenas nos intervalos de uma longa sessão de entrevistas a candidatos a uma vaga na revista que dirigia. Seus papéis e recortes iam empilhados em ordem sobre a mesa limpa. Quem esperaria por isso? Talvez os fortes. E talvez eu fosse forte, sem saber.

Cheio de interdições, ranzinza, ele me recebia na sua pequena sala de trabalho a cada quinze minutos e interrompia a nossa conversa sempre que um novo candidato ao emprego aparecia.

Eu estava por lá mesmo. E decidira furar seu bloqueio de maneira simples. Rindo sem parar do que ele me dizia. Queria fazer florescer a comédia que ainda acreditava habitar nele. Me tornei seu público.

Com o tempo, a entrevista se tornou hilária e franca. E ele ainda me deu a dica de uma câmera fotográfica portátil, a Olympus Stylus, então sua preferida, que me acompanharia por muitos anos.

Publicada a entrevista, Zingg ligou ao então secretário de Redação da IstoÉ, Hélio Campos Mello, para agradecer a matéria e a louca jornalista que haviam enviado para lhe entrevistar. Em seguida, ligou pra mim.

Fui atender na mesa do chefe, trêmula.

“David, você entendeu o título que eu dei à entrevista, não?” – perguntei, sorridente.

E ele, para meu alívio:

“Claro que entendi, Rosane. Very smart…”

(E ainda me lembro de ter minha gargalhada retribuída.)

O fim do mundo como você o conheceu

Curioso como um horizonte do futebol que eu julgava eterno está mais ou menos perdido.

Talvez por culpa do próprio futebol, domesticado como tem vindo.

Na minha infância e na minha vida de mãe de crianças esportistas experimentei outra realidade.

Coisas como drible, passada, enrolação de tempo, teatro, falta, drama, cambalhota, empurrão ou fingimento eram necessidades do espetáculo.

E quando roubávamos a bola e fazíamos o gol, lutando dentro das regras com nossas armas não-violentas, nada mais importava.

Lealdade nunca significou ter um fraque em campo.

Os príncipes destacavam-se justamente pela majestade.

E o time, coisa imperfeita, especializava seus ilusionistas.

Como reclamaríamos da malandragem do jogador vencedor, especialmente se pertencesse ao nosso time?

Impiedosos instantâneos

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Ninetto Davoli, Silvana Mangano e Totò em La Terra Vista Dalla Luna, de Pasolini, em As Bruxas

“As Bruxas”, no ciclo Visconti do Cinesesc, em São Paulo, é a arte mais maravilhosa. Pena que a próxima e única exibição desse filme de episódios realizado em 1966 se dê no dia 13 de março, no horário ingrato e vagabundo das 14 horas.

Visconti não faz a melhor entre as cinco narrativas (os outros realizadores são Pier Paolo Pasolini, Mauro Bolognini, Franco Rossi e Vittorio de Sica), talvez porque caminhe como um estranho pelo conto, ademais humorístico, marca deste filme.

Quem admira os representantes do gênero, Tchecov em especial, sua brevidade sem necessário desfecho ao destacar as misérias sociais, os golpes de sua trágica comicidade, vai entender a pertinência do filme de episódios, este que viabilizou o cinema na Itália no início ameaçador (por fim destruidor) da tevê. Os contos compreendem a vida urbana e fixam seus impiedosos instantâneos.

Visconti, na direção contrária, precisa do tempo do romance. Ele é mais (no sentido normalmente evitado) que um diretor de cinema. Eis um encenador teatral a observar, à distância de sua audiência, o erro burguês…

Que aulas as suas sequências de batalha! “O Leopardo”, esse western, encena a guerra real, seca. “Senso” a movimenta com realismo, sem temer o grotesco. Goya entra delicadamente por seus poros! Visconti sabe o que é lutar. 

Em “As Bruxas”, roteirizado por magos  da comédia sequencial como Age e Scarpelli, por fabulistas como Cesare Zavattini e pelo próprio Pasolini, a magia do cinema mudo, das máscaras faciais, daquele Totò inspirado em Chaplin, tomam a tela como um pequeno milagre. Todos os episódios são protagonizados por uma grande Silvana Mangano, a mulher de Dino De Laurentiis, produtor que além de levar Totò e Alberto Sordi ao filme convenceu Clint Eastwood (20 mil dólares e uma Ferrari) a destruir o impotente americano médio com um sarcasmo de aplaudir.

Esses filmes de episódios que os italianos faziam para salvar o cinema dos medíocres sempre me emocionaram. Às vezes não eram muitos os diretores reunidos. Dino Risi, por exemplo, apreciava tanto o modelo que fazia longas inteiros a partir de seus próprios pequenos contos violentos. Em “Os Monstros” e “Le Donne sono Fatte Così” (com Monica Vitti à frente de múltiplas interpretações das mulheres italianas), nunca foi tão certeiro. Um ferido a nos ferir…

Escrevo quando deveria dormir. Por empolgação amorosa, sem dinheiro. Quem dera voltar a este filme. Talvez um dia volte a todos os filmes. 

Meu conselho é que aproveitem o ciclo Visconti para também estar com Fellini, Pasolini, Rossellini, Monicelli…

Não percam “Bocaccio 70” e “Nós, as mulheres”.

Por seu deus.